André Luiz da Silva *
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Há temas que, enquanto não forem plenamente compreendidos, precisam ser revisitados sem descanso. A escravização de africanos, a exploração brutal de sua força de trabalho nas Américas e os desdobramentos desse processo na vida de seus descendentes não admitem redução nem romantização.
Lembro-me de que, em 1976, a canção Retirantes, tema da novela Escrava Isaura, ecoava o verso “Vida de negro é difícil, é difícil como o quê”. Contudo, o que se popularizou foi o refrão “Lerê, lerê…”, repetido de forma quase automática sempre que alguém se deparava com uma tarefa incômoda. Essa banalização, ainda que involuntária, revela um descompasso: equiparar pequenos desconfortos cotidianos às agruras impostas aos escravizados é um erro de perspectiva que precisa ser revisto.
Recentemente, uma declaração reacendeu esse debate. Durante sessão no Tribunal de Justiça do Pará, uma desembargadora afirmou que a magistratura caminha para um “regime de escravidão” diante de restrições a benefícios salariais. No entanto, a decisão do Supremo Tribunal Federal limitou vantagens, extinguindo parte delas e mantendo verbas indenizatórias. Ainda assim, os rendimentos divulgados — R$ 91 mil líquidos em março e R$ 216 mil acumulados no primeiro trimestre de 2026 — evidenciam um contexto que, por qualquer ângulo razoável, não se aproxima da ideia de privação extrema associada à escravidão.
Defendo que a magistratura deva ser bem remunerada e dispor de condições adequadas para exercer sua função com independência e eficiência. No entanto, é preciso reconhecer que há limites conceituais e éticos: certas comparações não apenas distorcem a realidade, mas também desrespeitam a memória histórica.
Em um país marcado por profundas desigualdades — muitas delas heranças diretas de um processo escravocrata seguido por uma abolição sem políticas de inclusão —, torna-se ainda mais grave quando setores privilegiados ignoram a dor coletiva e recorrem a analogias desproporcionais para sustentar reivindicações.
Durante o período escravista, pessoas escravizadas enfrentavam jornadas de 15 a 17 horas diárias, iniciadas antes do amanhecer e encerradas à noite, com pausas mínimas. Embora ainda existam, lamentavelmente, casos de trabalho análogo à escravidão — que devem ser combatidos com rigor —, há uma distância histórica e material imensa entre essas realidades e as condições de trabalho atuais em setores institucionalizados.
Hoje, discute-se a adoção da jornada 5×2 em substituição ao modelo 6×1, que atinge cerca de um terço da força de trabalho brasileira, com maior incidência entre pretos e pardos. Mesmo diante de evidências que indicam benefícios como redução de faltas e menor rotatividade, a proposta encontra resistência. Esse cenário evidencia como as disputas por melhores condições de trabalho ainda são atravessadas por desigualdades estruturais.
O Brasil, historicamente moldado por privilégios, só recentemente passou a implementar políticas mais consistentes de redução das disparidades, como programas de transferência de renda que alcançam milhões de pessoas. Ainda assim, persistem barreiras simbólicas e materiais.
Com frequência, parcelas privilegiadas da sociedade se enclausuram em bolhas de conforto, distantes das dificuldades coletivas, e respondem com indignação sempre que são chamadas a assumir responsabilidades que ultrapassem seus próprios interesses. Essa postura, além de insensível, revela uma desconexão preocupante com a história e com o presente.
Comparar quase quatro séculos de escravidão a situações contemporâneas díspares não é apenas inadequado — é um apagamento simbólico. Talvez por isso aqueles versos antigos ainda ecoem com força: “Vida de negro é difícil, é difícil como o quê”. Mais do que lembrá-los, é preciso compreendê-los — e agir para que deixem, um dia, de traduzir a realidade.
* Servidor municipal, advogado, escritor e radialista

