Rosemary Conceição dos Santos*
Conhecer é ação que seduz. Quando o ser conhece algo, um robusto mecanismo de recompensa cerebral, prazer intelectual e empoderamento pessoal perpassa por si, transformando a forma como o mesmo interage com o outro, o mundo e consigo mesmo, orientando e conferindo sentido à existência. Neste contexto, o Efeito Sedutor das Neurociências (ESN) pode ser entendido como um fenômeno cognitivo e social onde informações neurocientíficas aumentam a aceitação e a credibilidade de explicações sobre comportamento humano. Entretanto, como verificar se a informação científica está sendo compreendida qualitativamente, de forma correta e não como um neuromito, uma crença falsa ou interpretação equivocada sobre o funcionamento do cérebro, popularizada sem base científica sólida?
Um grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo, investigando o impacto do uso de termos neurocientíficos nas explicações de fenômenos psicológicos por professores da rede básica de ensino, bem como pela população geral e por especialistas em neurociências, comparou a avaliação de explicações “boas” e “ruins” sobre fenômenos psicológicos nas condições “com” e “sem” conteúdo neurocientífico entre (1) professores da rede básica sem exposição prévia às neurociências; (2) professores da rede básica com exposição prévia às neurociências; (3) população geral sem exposição prévia às neurociências; (4) população geral com exposição prévia às neurociências e (5) especialistas em neurociências (pós-graduandos ou pós-graduados na modalidade stricto sensu em áreas relacionadas às neurociências, como psicobiologia, psicofarmacologia, neuropsicologia, etc.).
O estudo apresentou metodologia quantitativa, transversal e entre participante, a saber, pesquisa observacional que coleta dados numéricos de diferentes grupos de sujeitos em um único momento temporal, funcionando como um “retrato” instantâneo de uma situação e comparando variáveis entre os grupos sem realizar acompanhamento ao longo do tempo. Como critérios para participação foram criados cinco grupos de sujeitos com idade mínima de 18 anos, nacionalidade brasileira e conclusão de, ao menos, uma graduação. Já os critérios de exclusão compreenderam o envio incompleto do formulário e a resposta incorreta à questão atencional. A amostra final foi composta por 630 participantes com idades entre 21 e 73 anos, com período de coleta entre 09/04/2024 e 13/08/2025.
Distribuídos em cinco grupos: (1) professores da rede básica de ensino sem exposição prévia às neurociências (n = 54); (2) professores da rede básica de ensino com exposição prévia às neurociências (n = 164); (3) público geral sem exposição prévia às neurociências (n = 110); (4) público geral com exposição prévia às neurociências (n = 231) e (5) especialistas em neurociências (n = 71), os pesquisadores consideraram como exposição prévia às neurociências a realização de, pelo menos, uma disciplina e/ou curso extracurricular relacionados às neurociências.
Os pesquisadores concluíram que: (1º) Todos os grupos diferenciaram a qualidade das explicações sem neurociência, avaliando as “boas” como significativamente melhores do que as “ruins”; (2º) Professores e indivíduos da população geral com exposição prévia às neurociências foram mais suscetíveis ao ESN do que os participantes sem exposição prévia às neurociências; (3º) Professores da rede básica de ensino apresentaram desempenho similar ao público geral; e (4º) O estudo apresentou novos achados sobre o ESN entre brasileiros e professores da rede básica de ensino, grupos não abrangidos em estudos sobre o efeito até o presente momento.
O trabalho “A influência das neurociências na avaliação da qualidade de explicações científicas por professores da rede básica de ensino”, de autoria dos pesquisadores Mariana de Almeida Cirelli, Ana Julia Ribeiro e Vitor Rabelo de Sá, sob a orientação do Prof. Dr. Fernando Eduardo Padovan-Neto, todos integrantes do Laboratório de Neuropsicofarmacologia das Doenças Neurodegenerativas da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP), foi apresentado na XV Reunião Anual do IBNeC, realizada em outubro de 2025 em Recife, Pernambuco, Brasil.
USP-RP / FAPESP*




