Dados da Divisão Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde de Ribeirão Preto revelam que a cidade registrou, no ano passado, 163 novos casos de hanseníase, média de um caso a cada dois dias. Os números mostram ainda que, nos últimos dez anos (2016 a 2025), foram contabilizados 1.216 novos casos da doença. Desde 2023, Ribeirão Preto passou a apresentar taxa considerada “Muito Alta” de novos casos, classificação utilizada pelo Ministério da Saúde para municípios que registram entre 20 e 39,99 casos anuais para cada grupo de 100 mil habitantes.
Outro dado considerado relevante pelas autoridades de saúde é o registro de casos em crianças de até 14 anos. Nos últimos dez anos, Ribeirão Preto contabilizou 43 diagnósticos nesta faixa etária, indicador que, segundo especialistas, pode apontar transmissão ativa e recente da doença.
A hanseníase, conhecida desde os tempos bíblicos como lepra, é uma doença infecciosa de evolução crônica, curável, mas que ainda representa um grande desafio de saúde pública no Brasil, especialmente por sua forte associação com a pobreza e a vulnerabilidade social.
O diagnóstico precoce e o tratamento oportuno constituem as ferramentas mais eficazes para interromper a cadeia de transmissão do Mycobacterium leprae na comunidade e prevenir o desenvolvimento de incapacidades físicas e danos neurais irreversíveis.
A hanseníase pode atingir pessoas de qualquer idade, sexo ou classe social. É necessário procurar o serviço de saúde ao apresentar sintomas e iniciar o tratamento para evitar sequelas graves e impedir a transmissão.
Apesar disso, a hanseníase tem cura, e o tratamento é disponibilizado gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O paciente deixa de transmitir a doença logo após o início da medicação adequada.
A transmissão ocorre principalmente pelas vias respiratórias, em situações de contato próximo e prolongado com pessoas não tratadas. Após o início do tratamento, o convívio social passa a ser seguro.
Outro aspecto relevante é que a investigação e o tratamento da hanseníase podem ser realizados por qualquer médico, tanto no sistema público quanto no privado, incluindo atendimentos por convênios e consultas particulares. Em Ribeirão Preto, todas as Unidades Básicas de Saúde (UBSs) disponibilizam o tratamento.
Brasil ainda registra até 30 mil casos por ano
O Brasil ainda registra entre 20 mil e 30 mil novos casos de hanseníase por ano, mantendo-se entre os países com maior número de diagnósticos da doença no mundo. Para especialistas, no entanto, esse número pode não refletir totalmente a realidade, já que há evidências de subdiagnóstico, especialmente nos casos sem lesões aparentes na pele.
Segundo o dermatologista Fred Bernardes Filho, do Hospital Beneficência Portuguesa de Ribeirão Preto e da MedClin de Ribeirão Preto, o principal desafio continua sendo o diagnóstico tardio.
“A hanseníase é, antes de tudo, uma doença dos nervos. Muitas vezes, o paciente não apresenta manchas na pele e procura atendimento por sintomas neurológicos, como dormência, formigamento, choques elétricos ou perda de força”, explica. “Esses casos podem ser confundidos com outras condições, o que atrasa o diagnóstico”, completa o especialista.
A doença pode evoluir de forma silenciosa e, quando não tratada precocemente, causar inflamação dos nervos (neurite) e danos permanentes, levando a incapacidades físicas. “O ponto mais importante não é gerar medo, mas sim consciência. Dormência, formigamento ou perda de sensibilidade não devem ser ignorados”, reforça. “Neuropatia não é um diagnóstico final, é um sinal de alerta que precisa ser investigado”, acrescenta o médico.
Ele também destaca a importância da avaliação de contatos próximos, especialmente familiares, como estratégia fundamental para interromper a cadeia de transmissão.
Crenças e lendas cercavam a hanseníase no passado

No Brasil, assim como em outros países, a hanseníase esteve historicamente cercada por crenças populares e forte estigma social. Durante décadas, atribuía-se a doença ao consumo de determinados alimentos, especialmente em regiões onde os casos eram mais frequentes.
Em Minas Gerais, por exemplo, a carne de porco e o pinhão eram apontados como causas da doença. Em outras regiões brasileiras, o peixe, o mel e algumas frutas também apareciam ligados à hanseníase nas crenças populares. Havia ainda quem acreditasse que alimentos como inhame, caju e ervas medicinais poderiam curar a enfermidade.
Nos anos 1920, uma das lendas mais conhecidas dizia que, se a doença fosse transmitida a sete pessoas, o portador ficaria curado. Há relatos históricos de doentes que se fingiam de mortos às margens das estradas para atrair viajantes e tentar contaminá-los.
Outra crença difundida nas décadas de 1930 afirmava que pessoas com hanseníase capazes de lançar “pragas” teriam a doença transferida para outras vítimas, garantindo sua própria cura.
O termo “lepra”, utilizado durante séculos, passou gradualmente a ser substituído oficialmente por “hanseníase” no Brasil a partir da década de 1970, em uma tentativa de reduzir o preconceito associado à doença. A mudança foi consolidada por legislação federal em 1995.
Casos de hanseníase em Ribeirão Preto
2016 – 53
2017 – 66
2018 – 73
2019 – 95
2020 – 92
2021 – 224
2022 – 124
2023 – 172
2024 – 154
2025 – 163
Total – 1.216
Casos de hanseníase em crianças de até 14 anos em Ribeirão Preto
2016 – 5
2017 – 0
2018 – 2
2019 – 9
2020 – 2
2021 – 8
2022 – 4
2023 – 4
2024 – 8
2025 – 1
Total – 43
Sinais e sintomas mais frequentes da hanseníase
– Manchas brancas, avermelhadas, acastanhadas ou amarronzadas na pele com alteração da sensibilidade ao calor, frio ou toque;
– Comprometimento dos nervos periféricos, geralmente espessamento e engrossamento, associado a alterações sensitivas, motoras ou autonômicas;
– Áreas com diminuição dos pelos e do suor;
– Sensação de formigamento ou fisgadas, principalmente nas mãos e nos pés;
– Diminuição ou ausência da sensibilidade ou da força muscular na face, mãos ou pés;
– Caroços (nódulos) no corpo, em alguns casos avermelhados e dolorosos.

