Antonio Carlos A. Gama *
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O que se pretende é que haja uma só moral. Quando muito, admite-se que ela varie no tempo e no espaço, embora mantenha os seus princípios fundamentais. Mas, o relativismo é uma atitude que corrói a moral, a verdade e o conhecimento.
Ninguém pode ser quase moral, como nenhuma mulher será quase grávida.
No entanto, há uma moral caseira, familiar, e uma moral externa. Uma moral cívica, uma moral política, uma moral para o guerreiro e uma moral para o cidadão pacífico. Uma moral religiosa e uma moral leiga.
Nem tudo o que é lícito é moral. E representam-se a moral e o direito com dois círculos concêntricos: o maior é o da moral e o menor é o do direito.
São palavras muito amplas a moral e a moralidade. Elas tendem a abranger todos os atos da vida. Também se diz que o homem é um ser moral. Antes de ser racional, como também o definem, ele é um ser moral. Todavia, a moral não será deduzida da racionalidade? E o raciocínio maliciosamente desvirtuado, mas brilhante, é destinado a enganar os incautos. É a mentira, a fraude, praticadas para lograr e obter vantagem de outro.
A arte nada tem a ver com a moral e o que chamamos de Natureza é completamente indiferente à moral.
A moral cristã não é a mesma moral de Iavé, do Antigo Testamento. Se o Deus severo e irascível deste condenava a mulher adúltera e permitia ou aconselhava que a apedrejassem, Cristo socorreu-a, e sobrepôs aos nossos erros o arrependimento dos pecados.
A moral do caçador não é a mesma reservada ao lavrador. A do comerciante não condiz com a do freguês, ou do comprador.
Cada profissão tem a sua moral, ou a sua ética. O advogado tem o dever de defender um criminoso, cujos crimes o repugnam. O médico deve curar e salvar vidas de pacientes cuja existência é uma anomalia.
Quando há conjunção de imoralidade entre o pensamento e o ato dele resultante é mais grave a violação da moral? No entanto, se o ato não se realiza, ou não se exterioriza, não se reprova nem se pune o pensamento, no âmbito jurídico.
Disso se concluiria que só se cogita da moral, ou do imoral, quando se patenteiam. A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude, já observava La Rochefoucauld.
A justiça que condena é também a justiça que absolve. E o crime prescreve, por conveniência política ou social. A moral do prisioneiro é escapar da cadeia, e a moral do carcereiro é impedir que ele fuja.
Na guerra, mata-se o inocente e o culpado. Os criminosos de guerra são aqueles que são vencidos, enquanto os vencedores têm sempre razão.
A moral do jornalista não é a mesma moral dos políticos, e uns e outros podem ser imorais.A moral do beija-flor não é a mesma do urubu.
A preguiça é condenada, mas ela nos leva não raro a deixarmos de praticar atos imorais, por falta de atividade.
Enfim, a minha moral e a tua são tais, que fico por aqui.
* Promotor de Justiça, aposentado, advogado, professor de Direito e escritor

