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Paixão fragmentada

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O futebol continua sendo um dos maiores símbolos culturais do Brasil, mas a relação entre o torcedor e a Seleção Brasileira mudou. Pesquisa da consultoria Worldpanel by Numerator aponta que 19% dos brasileiros não têm mais a equipe nacional como favorita. Argentina, França, Espanha e até Estados Unidos aparecem entre as preferências declaradas dos entrevistados. O dado, por si só, já revela uma transformação relevante em um país historicamente associado à camisa amarela.

A mudança não significa necessariamente abandono do futebol, mas enfraquecimento do vínculo emocional com a Seleção. Nas últimas décadas, o Brasil deixou de produzir identificação contínua entre torcida e jogadores. Boa parte dos atletas passa a maior parte da carreira no exterior, distante do cotidiano do torcedor brasileiro. O futebol nacional tornou-se mais globalizado, mas também mais distante culturalmente. Clubes europeus ganharam espaço no imaginário popular, especialmente entre os jovens, impulsionados por transmissões digitais, redes sociais e videogames.

Há ainda um desgaste institucional importante. A imagem da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) enfrenta crises frequentes, trocas de comando, instabilidade técnica e resultados abaixo da expectativa desde o trauma da Copa de 2014. Pesquisas recentes mostram redução do entusiasmo com a Copa do Mundo e maior fragmentação do interesse esportivo, que hoje divide espaço com séries, música, influenciadores e entretenimento digital.

Outro aspecto relevante é a politização da camisa da Seleção nos últimos anos. O uniforme, antes símbolo quase consensual de identidade nacional, passou a carregar disputas ideológicas e rejeições sociais. Isso contribuiu para afastar parte da população do sentimento coletivo tradicionalmente associado ao futebol brasileiro. Em paralelo, seleções como Argentina e França passaram a representar, para muitos torcedores, modelos de competitividade, organização e protagonismo recente dentro de campo.

O dado mais importante talvez não seja o crescimento da torcida por equipes estrangeiras, mas o fato de a Seleção Brasileira já não mobilizar automaticamente a identidade nacional como antes. O futebol continua forte, economicamente poderoso e culturalmente presente. Mas a conexão emocional com a Seleção parece menos baseada em pertencimento espontâneo e mais dependente de resultados, identificação e credibilidade. Em um país que sempre se definiu como “o país do futebol”, isso representa uma mudança cultural significativa.

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