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Psicologia & Neurociência (7) Hipocampo e declínio cognitivo na velhice

José Aparecido Da Silva*

 

Quando o indivíduo envelhece, o tamanho total de seu cérebro cresce, alcança um pico por volta dos 20 anos, e então declina, diminuindo rapidamente por volta dos 60. As taxas de atrofia cerebral total variam entre indivíduos, mas geralmente aumentam com a idade e doenças e, mais importante, têm sido associadas com perdas funções cognitivas relacionadas com a idade. Como o cérebro não se atrofia uniformemente, diferentes regiões cerebrais perdem volume em diferentes taxas e, portanto, perdas das habilidades cognitivas conectadas à mesma podem ser influenciadas pela atrofia em diferentes regiões específicas do cérebro. Por exemplo, medidas da atrofia do hipocampo, uma região geralmente associada com o processamento mnemônico, têm sido relacionadas a distintos declínios no desempenho cognitivo na velhice.

Recente estudo publicado no Journal of the International Neuropsychological Society (2011:17,1-6), investigou a associação do volume do cérebro e do hipocampo com funções cognitivas na velhice. Para isso, medidas do volume do cérebro e do hipocampo em jovens (18 e 30 anos) e idosos saudáveis (60 e 83 anos) foram comparadas com escores de funções cognitivas em três domínios de habilidades baseadas no desempenho em testes neuropsicológicos. Estes domínios, memória, velocidade de processamento e inteligência geral fluída, representam diferentes funções cognitivas que têm sido observadas declinar com a idade. Todas as medidas do volume do cérebro foram mensuradas a partir de imagens estruturais ponderadas capturadas através do imageamento de ressonância magnética (MRI scanner).

Dados revelaram uma associação entre uma maior atrofia do hipocampo e menor inteligência fluída nos idosos, mas não nos jovens, sugerindo uma influência específica da atrofia do hipocampo no declínio do funcionamento da inteligência fluída que é, usualmente, relacionada com a idade avançada. Lembramos que inteligência fluída se refere ao raciocínio lógico e capacidade de resolver problemas originais e inéditos, bem como, entender relações complexas. Embora memória e velocidade de processamento tenham diminuído com a idade, suas relações com o volume do hipocampo não foram significativas. Sugere-se que a conexão entre volume do hipocampo e inteligência fluida tenha sido resultante da atrofia relacionada a idade, e não simplesmente da variação individual no tamanho do hipocampo, porque a mesma associação esteve ausente no grupo de jovens, o qual, embora faltando atrofia associada a idade, evidenciou considerável, mas variação normal, no volume do hipocampo. Estes resultados sugerem um papel da atrofia do hipocampo no declínio da inteligência fluída em idosos.

A frase “Use-o ou perca-o” reflete uma hipótese contida na literatura popular e científica referente ao efeito de uma pessoa poder retardar o envelhecimento cognitivo, isto é, o declínio da habilidade de raciocínio e da velocidade de processamento mental com a idade, ou mesmo demência, engajando-se em atividades cognitivamente demandantes que exercitam a mente. Inversamente, esta hipótese sustenta que um ambiente não demandante fracassará de impedir, e pode até mesmo acelerar, o processo de declínio cognitivo. Assim considerando, aposentados, devem ser convencidos a manter um estilo de vida engajada, que envolva atividades intelectualmente estimulantes e ativas, tais como, leitura, jogos variados e palavras cruzadas, quebra-cabeças e similares. Frutos disso, estudiosos têm analisado o efeito da aposentadoria no funcionamento cognitivo. Para tanto, participantes de 51 a 75 anos foram aferidos quanto às suas habilidades cognitivas, través de um simples teste que mensurou a memória episódica refletida num teste de aprendizagem verbal e de relembrar. Esta tarefa de memória episódica consistiu em aprender uma lista de 10 nomes comuns, tais como, livro, criança, hotel, entre outras, e depois solicitar ao participante que relembrasse quantas palavras ele havia memorizado, em qualquer ordem.

Globalmente, os resultados revelaram um impacto causal negativo e significante sobre o funcionamento cognitivo, próximo a 10%. Ademais, e muito importante, os resultados sugerem que, embora o efeito da aposentadoria sobre o funcionamento cognitivo não seja instantâneo, muito do declínio ocorre no começo do período de aposentadoria, tendendo a se estabelecer depois. Logo, políticas públicas, que visem promover a participação de idosos na força de trabalho, podem, não apenas, garantir a sustentabilidade dos sistemas de previdência social, como, também, criar externalidades de saúde positiva para os idosos.

Professor Titular Sênior – USP- RP*

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