Rosemary Conceição dos Santos*
Avaliar o nível de conhecimento de professores da rede básica de ensino no Brasil sobre os mitos que envolvem transtornos do neurodesenvolvimento foi o objetivo de pesquisa de um projeto de iniciação científica desenvolvido na Universidade de São Paulo, Campus de Ribeirão Preto, em 2025. Nele, investigar se os participantes conseguiam discriminar informações verdadeiras de informações falsas sobre os transtornos do neurodesenvolvimento, bem como verificar até que ponto a formação profissional dos professores — incluindo seu conhecimento prévio em neurociências e seu contato prévio com os transtornos do neurodesenvolvimento — é capaz de predizer o endosso aos mitos, foram premissas viabilizadoras de um mecanismo de feedback para que os professores envolvidos tivessem acesso às respostas corretas e às explicações acerca de sua veracidade ou falsidade.
Os participantes, recrutados de forma não probabilística, ao responderem aos questionários Sociodemográfico e NeuroSENse Questionnaire (Adaptado) — on-line, por meio da plataforma Google Forms, aceitando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), demonstraram ser efetiva tal capacitação docente para aprimorar a prática pedagógica fundamentada exclusivamente em informações científicas. Por adição, a pesquisa também alcançou resultados relevantes ao instigar a realização de futuros estudos sobre a temática, visando a elaboração de intervenções que diminuam a difusão dos mitos do neurodesenvolvimento.
De acordo com o estudo, o aumento de pesquisas na área das neurociências é notório, principalmente, a partir da década de 1990, a então chamada “Década do Cérebro”, em que muitas linhas de pesquisa foram desenvolvidas e aperfeiçoadas, sendo elas não apenas relacionadas à área médica, mas também a questões sociais, como saúde mental e desempenho acadêmico, por exemplo. Desde então, as neurociências receberam um maior nível de cobertura pelas mídias de divulgação de informação. Entretanto, muitas vezes, o fato desta divulgação ser realizada simplificando informações, ou ainda, explicando-as de forma equivocada, ocasionou que muito desse conteúdo viesse a disseminar equívocos ao público não especializado, resultando na veiculação de uma informação incompleta e enviesada. Propagada como verdade, esta informação incorreta consolidou concepções equivocadas, passando a dificultar a distinção entre conhecimento científico fundamentado e crenças infundadas, sendo, por tais motivos, chamada de neuromito. Dificultando o desenvolvimento de atitudes, das habilidades de pensamento e da análise e interpretação de informações científicas, os neuromitos inviabilizaram o exercício da argumentação.
No contexto dos transtornos do neurodesenvolvimento, os neuromitos, ao disseminarem informações falsas, podem afetar diretamente os indivíduos portadores destes transtornos, quando, por exemplo, reproduzem estigmas acerca de sua condição ou dificultam a busca por tratamentos de saúde adequados. De acordo com o estudo, a difusão correta de conhecimentos neurocientíficos pode auxiliar profissionais da educação a buscarem informações embasadas cientificamente, promovendo melhores condições para o pleno desenvolvimento de estudantes e a qualificação do processo de ensino-aprendizagem. A pesquisa “Prevalência de neuromitos relacionados a transtornos do neurodesenvolvimento entre professores da educação básica no Brasil”, de autoria do graduando Guilherme Raul Aires de Mello, sob a orientação do Prof. Dr. Fernando Eduardo Padovan-Neto, foi desenvolvida no Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP).
USP / FAPESP*




