José Moacir Marin *
Recapitulando a parte 1, a Covid Longa é causada pela presença da proteína Spike do vírus SARS Cov-2.
Em dezembro de 2020, as vacinas Comirnaty (Pfizer) e Spikevax (Moderna) receberam autorização para uso emergencial no combate à pandemia da Covid-19. Poucos meses depois, em maio de 2021, começaram a surgir os primeiros relatos de efeitos adversos associados às vacinas de mRNA. Já entre julho e setembro do mesmo ano, foram descritos casos de sintomas persistentes após a vacinação.
Os sintomas observados nesses pacientes se mostraram semelhantes aos já conhecidos da chamada Covid longa. Essa condição passou a ser descrita como “Post-Acute COVID-19 Vaccination Syndrome” (PACVS), ou Síndrome Pós-Vacina. Em ambos os casos, a hipótese levantada envolve a presença da proteína Spike, seja produzida pelo próprio vírus, seja induzida pelas vacinas de mRNA. A partir disso, alguns pesquisadores sugerem que parte das pessoas diagnosticadas com Covid longa possa, na realidade, apresentar sintomas relacionados à PACVS.
Entre as hipóteses discutidas para explicar a síndrome está a possibilidade de desregulação em diferentes sistemas do organismo causada pela produção prolongada da proteína Spike após a vacinação. Segundo alguns estudos e relatos citados por pesquisadores da área, alterações introduzidas no RNA mensageiro teriam ampliado o tempo de atividade da proteína no organismo, passando de algumas horas para períodos que poderiam durar meses.
Também é importante destacar que os tratamentos sugeridos para Covid longa e PACVS não são necessariamente os mesmos. A Covid longa foi rapidamente reconhecida pelas autoridades de saúde e passou a receber protocolos mais padronizados de acompanhamento. Já a PACVS ainda não possui reconhecimento oficial como doença em diversos países, o que, segundo críticos dessa postura, teria atrasado o avanço das pesquisas e o desenvolvimento de tratamentos específicos.
Uma revisão recente de estudos sobre a síndrome identificou 241 pacientes com PACVS submetidos a 209 tipos diferentes de terapias, o que demonstra a ausência de consenso clínico sobre o tratamento mais adequado. Há ainda trabalhos sugerindo que a condição afete mais mulheres do que homens, numa proporção aproximada de três para um.
Diante desse cenário, surge a discussão sobre os motivos pelos quais a PACVS ainda não foi oficialmente reconhecida por parte das autoridades de saúde, apesar de descrições da síndrome existirem há cerca de três anos. Entre as hipóteses levantadas está uma possível falha dos sistemas de farmacovigilância em identificar e consolidar os sintomas associados à condição. Para alguns analistas, essa explicação gera questionamentos, já que os mesmos órgãos conseguiram reconhecer rapidamente os efeitos da Covid longa. Outra hipótese discutida é o impacto político e institucional que o reconhecimento formal da síndrome poderia provocar, especialmente em relação à confiança pública nas campanhas de vacinação conduzidas durante a pandemia.
O não reconhecimento da PACVS também levanta discussões sobre impactos sociais e econômicos. Pacientes que relatam sintomas persistentes afirmam enfrentar dificuldades para acessar tratamentos, obter afastamentos ou receber apoio financeiro, arcando individualmente com os custos médicos. Soma-se a isso o fato de que, em diversos países, os contratos emergenciais firmados durante a pandemia estabeleceram regras específicas sobre a responsabilidade jurídica relacionada às vacinas.
Há ainda quem sustente que o reconhecimento oficial da PACVS poderia abrir espaço para grande quantidade de ações judiciais. Nos Estados Unidos, por exemplo, militares e trabalhadores que sofreram sanções por se recusarem a receber vacinas de mRNA poderiam utilizar um eventual reconhecimento da síndrome como argumento em disputas judiciais ligadas à obrigatoriedade vacinal.
Por fim, é importante esclarecer que os dados e discussões mencionados neste artigo se referem principalmente a estudos, debates e decisões observados nos Estados Unidos e em países da Europa.
* Professor aposentado de Genética e Biologia Molecular da USP/ Campus Ribeirão Preto

