Jair Correia *
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Sempre que uma notícia de impacto domina as manchetes e chama a atenção da sociedade, não tarda para que uma nova surja, quase como uma cortina de fumaça, esvaziando a importância da primeira. Vivemos na era da distração programada. A imprensa, de modo geral, atua frequentemente como fiadora de iniciativas corporativistas, em detrimento dos interesses reais da população. E não é difícil entender o porquê: a mídia hegemônica segue a cartilha de que os ricos possuem mais direitos que os pobres, afinal, são os donos do capital que, de uma forma ou de outra, patrocinam e sustentam as grandes redes de jornalismo.
Nesse jogo de espelhos, debates estruturais são varridos para debaixo do tapete. Há muito tempo não se ouve falar seriamente em Renda Básica Universal (RBU) nos grandes telejornais. Em vez disso, o que vemos é uma tentativa constante de massacrar programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, sob oargumento moralista e falacioso de que eles “viciam” as pessoas, desestimulando-as a trabalhar para garantir o próprio sustento.
Trata-se de um argumento capitalista antigo, cínico e profundamente enraizado: a ideia de que o rico que não faz nada é um “investidor” útil à sociedade, enquanto o pobre que reivindica o direito de não fazer nada — ou de ter um respiro para existir além da sobrevivência — é um parasita. Mas, afinal, por que as pessoas precisam dedicar a maior parte de suas vidas ao trabalho exaustivo? Apenas para sustentar a riqueza de uma minoria?
É preciso desmistificar a engrenagem da acumulação. Como as pessoas ficam ricas? A resposta não reside apenas no mito do empreendedor solitário, mas na base da pirâmide. A riqueza se consolida quando os produtos são vendidos e o pobre os compra. Quando um empresário abre um bar, é o trabalhador quem consome os petiscos e as bebidas. Quando uma fábrica produz em larga escala, é a massa populacional que consome. Quando um hotel é construído, ele depende de uma cadeia de serviços e de hóspedes para prosperar. Não é apenas o rico que produz riqueza; o pobre é o motor ativo e indispensável na evolução do capital, impulsionando o dinheiro do menos rico para o mais rico.
Apesar de ser a força motriz dessa engrenagem, a base da pirâmide fica com as migalhas. O Brasil é o triste campeão quando se fala em disparidade social. Quando olhamos para a concentração de riqueza, índices internacionais apontam um Gini na assustadora casa de 0,82. Mesmo nos dados oficiais de renda do IBGE, o Índice de Gini voltou a subir, atingindo 0,511 em 2025, evidenciando que a renda dos mais ricos cresce em um ritmo brutalmente superior à dos mais pobres. É o retrato de um abismo insustentável.
Para entender a profundidade dessa fratura, basta olhar para os dados levantados por economistas como Thomas Piketty, Emmanuel Saez e Gabriel Zucman. Segundo seus estudos, 10% de toda a renda nacional nas economias capitalistas avançadas são pagos ao 1% mais rico exclusivamente sob a forma de renda de capital — ou seja, dividendos, juros e aluguéis. Como bem pontua o analista Matt Bruenig, a Renda Básica Universal já existe, mas hoje ela é um privilégio exclusivo dos super-ricos. Um em cada dez dólares gerados na economia vai para o topo da pirâmide sem que eles precisem mover uma palha de trabalho produtivo. Se a “renda passiva” e o dinheiro desvinculado do suor fossem tão destrutivos para o caráter humano, como argumentam os críticos dos programas sociais, a elite já teria entrado em colapso moral e social há séculos.
Por que, então, não inverter essa lógica? Por que não capturar parte dessa riqueza que flui passivamente para o topo e distribuí-la para toda a sociedade como uma Renda Básica Universal?
A defesa de uma renda incondicional não é apenas uma manobra contábil; é um imperativo humanista. O psicanalista e filósofo Erich Fromm, já na década de 1950, defendia que o ser humano tem o direito incondicional de viver e não morrer de fome, independentemente de cumprir ou não o seu “dever para com a sociedade”. Fromm ironizava o fato de que conferimos o direito à alimentação e ao teto incondicional aos nossos animais de estimação, mas o negamos aos nossos semelhantes. Garantir o básico para a sobrevivência permitiria que a humanidade passasse da mera luta pela subsistência para a busca de uma vida autêntica e com pleno desenvolvimento de suas potencialidades.
Além do argumento moral, há o pragmatismo da sobrevivência institucional. Como alerta KanniWignaraja, subsecretária-geral da ONU, a alternativa à Renda Básica Universal é o aumento da agitação social, conflitos, migração em massa e a proliferação de extremismos. A pandemia já nos deu um vislumbre das vulnerabilidades de um sistema sem redes de segurança. Tributar as grandes corporações multinacionais — que lucram bilhões e usam brechas para não pagar impostos — e taxar as grandes fortunas não é um delírio utópico, mas a única via para financiar um novo contrato social que evite a barbárie.
Esse debate ganha contornos de urgência máxima quando olhamos para o futuro do trabalho. Atualmente, vemos países e empresas acenando para a redução da jornada, discutindo o regime 4×3 (quatro dias de trabalho e três de descanso) ou 5×2. Tais discussões nos remetem diretamente ao debate sobre o “terceiro setor” (o setor de serviços, lazer, cultura e cuidados), tão em voga nos anos 1980.
Contudo, o cenário atual traz um elemento disruptivo sem precedentes: o auge da Inteligência Artificial (IA) e a produção cada vez maior de robôs e algoritmos que irão substituir, em larga escala, a força de trabalho humano, tanto braçal quanto cognitiva. Se as máquinas farão o trabalho, quem receberá os salários? E, mais importante para a própria lógica capitalista: se a massa de trabalhadores ficar desempregada e sem renda, quem comprará os produtos fabricados pelos robôs dos ricos?
A revolução tecnológica torna obsoleto o velho paradigma de que o ser humano só tem valor se estiver atrelado a uma jornada de trabalho formal. Discutir o terceiro setor, a economia do cuidado e a redução da jornada sem atrelá-los à implementação de uma Renda Básica Universal é enxugar gelo.
Como Piketty demonstra em sua obra, a desigualdade não é um fenômeno natural, nem um destino inevitável ditado pela tecnologia ou pela economia; ela é uma escolha política e ideológica. As sociedades inventam regras para distribuir poder e riqueza. Chegou a hora de inventarmos novas regras. Não é razoável exigir que a humanidade continue competindo com máquinas por salários de fome apenas para justificar o seu direito de existir. A Renda Básica Universal é o passo civilizatório necessário para garantir que os frutos da automação, da IA e da produção global de riquezas sirvam para emancipar o ser humano, e não para escravizá-lo ainda mais aos caprichos do 1%.
* Artista visual e cineasta

