Edwaldo Arantes *
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Aos dezesseis anos, emancipado, deixei minha amada, São Sebastião do Paraíso, nas Minas Gerais, aportando nestas terras, em uma noite salpicada com milhões de estrelas brilhando no firmamento.
Nunca havia adentrado um táxi, já que na minha terra, eram pouquíssimos, denominados, “Choferes de Praça”, privilégio destinado aos coronéis e abastados.
Portava parcos vinténs e uma missiva de minha mãe endereçada a uma conhecida, solicitando nos abrigasse em sua pensão no Centro.
Acordando com as galinhas, molhado pelo calor, perambulei aturdido e agoniado, mais perdido que “cachorro caindo da mudança”, não conhecia sequer um semáforo.
Uma incerta e assustada jornada pela cidade à procura de uma ocupação, fazendo jus à canção de Vinícius e Toquinho, “pois o vencimento não é como eu não pode esperar”.
Ao meu lado seguia meu irmão Noel, ainda de calças curtas,caminhando garboso e importante ao meu lado, cravando suas unhas entrelaçadas à minha mão.
Um calor abrasador, o sapato apertava, o suor escorria, a barriga roncava, o tempo passando, entrando em lojas, armazéns, escolas, procurando uma ocupação, ouvindo sempre a mesma cantilena; “não temos vagas”.
Após dias em vão, entrei em uma agência bancária denominada, Unibanco, nunca havia ouvido falar, conhecia, desde a minha tenra idade somentes os bancos, Brasil, Nacional e Lavoura, dirigi-me ao administrativo, estava escrito na placa sobre a mesa, Antonio Mauro Elias.
Recebeu-me sem levantar a cabeça e o olhar, logo dizendo, “não estamos contratando”, cansado e com fome, comentei entre os dentes. Que “merda”, preciso trabalhar, só ouço, não!
Já estava virando pelos calcanhares, preparando minha retirada com mais um bota fora no currículo, quando ele indagou? Menino! você é de onde?
Respondi firme, mineiro, de Alfenas.
Um pequeno silêncio brotou naquela sala, pela primeira vez ergueu os olhos, bradando.
“Eu também sou de Alfenas!”.
Com euforia e brilho nos olhos passou a discorrer sobre o nosso torrão natal, comentando sobre seus personagens, ancestrais, indagando sobre meus familiares, eu atônito, pois na realidade, apenas nasci em Alfenas, com pouquíssimos dias fomos residir em São Sebastião do Paraíso, seguindo o dito mineiro em responder sem rodeios, como as coisas o são, cumpri na íntegra minha Certidão de Nascimento.
Não sabia bulhufas sobre Alfenas, mas nossa amizade já estava selada, desde que respeitadas as fronteiras de Juscelino, Drummond, Guimarães Rosa, Humberto Mauro, Ziraldo, Sabino, Mendes Campos e, tantos outros, todas as convenções e tratados caíram por terra, fui contratado imediatamente.
Ribeirão Preto proporcionou-me tudo o que pensei e imaginei , fiz uma longa carreira na iniciativa privada e na administração pública municipal e governo federal.
Atuei em renomados sistemas de ensino, permaneci por cerca de 25 anos nos serviços públicos, comandando diversas secretarias.
Foram inúmeras ações, projetos, planos e programas de incentivo ao livro, leitura e bibliotecas.
Tive o privilégio de ser articulista em diversos matutinos e revistas literárias, principalmente, o Tribuna Ribeirão.
Nesta terra de céu anil celestial, sol ardente, quarenta graus, polo de desenvolvimento tecnológico, saúde e educacional, pujante comércio, acolhedora de milhares, como eu, que a procuraram na busca da felicidade, ensinamentos e realizações.
Completei este ano, 67 primaveras, continuo a agradecer todos os instantes, onde um simples rapaz, hoje senhor, oriundo das Gerais, pelas oportunidades contempladas.
Capital do café, da cultura, do chopp, dos mineiros e, de todas as naturalidades que aqui aportaram um dia, e ficaram, filhos, netos, bisnetos, casamentos, batizados, colações, velórios e bodas de todos os metais e minerais.
Também permaneci, “nunca mais voltei por lá”, professor, escritor, agente cultural, atualmente, diretor do Sindtur e vice-presidente do Observatório Econômico e Turismo de Ribeirão Preto e Região.
Todas as glórias e dádivas aos 170 anos.
* Agente cultural

