Tribuna Ribeirão
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Psicologia & Neurociência (17): Dor na Literatura

José Aparecido Da Silva*

 

O que a ciência e a literatura nos ensinam sobre a dor? No silêncio de uma manhã de domingo, diante de uma xícara de café, é provável que poucos de nós queiramos pensar na dor. Ela nos parece um território árido, um deserto silencioso que esvazia e cala as palavras. No entanto, se há algo que nos torna profundamente humanos, é a nossa insistente teimosia em tentar dizer o indizível. E é justamente nessa fresta entre o sofrimento íntimo e a palavra partilhada que a ciência e a literatura se encontram para revelar um dos segredos mais bonitos do nosso cérebro.

 

Por muito tempo, a medicina e a filosofia trataram a dor física e a angústia moral como mundos totalmente apartados. Na clínica fria e positivista do século XIX, o escritor russo Liev Tolstói denunciou esse abismo na obra-prima A Morte de Ivan Ilitch. Diante da angústia de sua finitude, o protagonista implorava por compaixão, mas encontrava um médico famoso obstinado em discutir tecnicamente se o problema residia em um “rim flutuante ou em uma doença do ceco”. Quem aliviava de fato o tormento do juiz moribundo era Guerássim, um humilde servo campestre que simplesmente se sentava ao seu lado, apoiava as pernas do patrão sobre os ombros e oferecia uma presença afetuosa. O que Tolstói descreveu de forma genial em 1886 antecipou o conceito moderno de “Dor Total” — a percepção científica de que a dor é um amálgama inseparável de biologia, mente, sociedade e espírito.

 

Mas como o cérebro processa e compreende essa experiência quando ela é colocada no papel? Fernando Pessoa decifrou essa engrenagem em seu famoso poema Autopsicografia, ao escrever que “O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente”. Longe de ser uma mentira ou uma farsa, o fingimento poético de Pessoa é a própria essência da comunicação humana. Ele compreendeu que para a dor íntima ser compartilhada e sentida por quem lê, ela precisa ser intelectualizada e traduzida pela estética da linguagem. E a neurociência moderna acaba de dar razão ao poeta português.

 

Estudos recentes utilizando ressonância magnética funcional (fMRI) revelam que o nosso cérebro é um espetacular simulador de almas. Quando lemos uma narrativa envolvente, ativamos um sistema biológico conhecido como neurônios-espelho. Se lemos sobre a agonia física de um enfermo, sobre a perversa tortura de um rato descrita por Machado de Assis no sombrio conto A Causa Secreta, ou sobre a saudade incurável de seu soneto escrito para a falecida esposa Carolina, nosso cérebro não se limita a decodificar símbolos frios. Áreas como a ínsula e o córtex cingulado anterior são recrutadas de imediato, gerando o que os cientistas chamam de simulação corporal ativa. Sentimos, literalmente, um eco físico e visceral daquele sofrimento em nosso próprio peito.

 

Essa ligação íntima entre o que lemos e o que o corpo sente é tão profunda que molda até as nossas metáforas cotidianas. Pesquisas lideradas pelo neurocientista Krish Sathian, na Universidade Emory, mostraram que quando ouvimos expressões sensoriais como “ter um dia áspero” (em vez do literal “ter um dia ruim”), nosso cérebro ativa automaticamente o opérculo parietal, a exata área do córtex somatossensorial responsável por identificar texturas físicas pelo toque. Demoramos em média alguns centésimos de segundo a mais para processar a metáfora (cerca de 0,84 segundos contra 0,63 segundos das sentenças comuns) porque o cérebro realiza uma simulação tátil real para compreender o significado abstrato da dor emocional.

 

O psicólogo Keith Oatley define a ficção literária como o “simulador de voo da mente”. Assim como um piloto treina manobras difíceis em terra firme, a leitura de grandes autores nos permite simular dilemas, sofrimentos e perdas de forma segura — é a oportunidade perfeita para “apostar sem o risco”. Exercitamos nossa empatia nas páginas de Manuel Bandeira e seu tísico Pneumotórax, na dolorosa melancolia urbana de Caio Fernando Abreu, ou no desassossego de Bernardo Soares.

 

No final das contas, divulgar essa ciência é lembrar que a dor não precisa ser vivida no isolamento. Quando nos abrimos às histórias e crônicas do outro, reconfiguramos nossas próprias redes neurais, tornando-nos mais propensos a atitudes de solidariedade e justiça social. A literatura nos ensina a falar; a ciência nos explica como sentimos; e ambas nos convidam, neste domingo, a acolher a biografia e o sofrimento de cada ser humano como parte de nossa própria história.

 

Professor Titular Sênior da USP-RP*

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