Edwaldo Arantes *
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Possuo uma longa relação de amizade com o Pinguim, frequentador assíduo sempre pedindo chopes com colarinho alto. A nossa sintonia era de tal forma profunda, marcada pelo carinho que, em todos os meus aniversários, era agraciado com um pinguim que levava o meu nome e a data: “19 de maio”. Devo ter ganhado uns quarenta, ou mais.
A eterna choperia nasceu em 1936, no térreo do imponente Edifício Diederichsen, projeto do arquiteto Antonio Terreri em parceria com o construtor Paschoal de Vincenzo. Tornou-se o templo nacional do chope e um ícone da arquitetura estilo art déco, sendo a primeira edificação e pioneira com sete pavimentos do interior paulista.
Aos sábados, a casa descerrava as portas às 11h, eu entrava às 10h. A fila crescia rapidamente chegando até o final do quarteirão; era o “estouro da boiada”, como se dizia nas minhas Minas Gerais. Hoje, o “gado” virou sinônimo de otários e ignaros que defendem um facínora, embusteiro, miliciano, psicopata e golpista.
Foram muitas e muitas histórias. Uma delas aconteceu em uma noite calma, modorrenta e vazia. Como sempre, estava sozinho em meus devaneios e pensamentos entregue às tulipas, encostado ao balcão, sorvendo um meio creme acompanhado de um Steinhaeger.
Adentrou um senhor alto, de rosto lívido, trajando casaca preta sobre uma camisa alva, na mais fina elegância. Encostou-se ao balcão e cumprimentou-me. Era ninguém menos que o brilhante pianista Arthur Moreira Lima, que resolveu, no intervalo da apresentação no majestoso Theatro Pedro II, saborear ligeiramente o famoso néctar da casa. Sorveu avidamente três chopinhos e, como bom carioca, pediu-os “carecas”, crime do qual foi imediatamente inocentado. Trocamos algumas palavras, perguntou-me de forma amável:
– Vais ficar aqui?
Respondi, prontamente:
– Até fechar.
Sorriu um sorriso icônico:
– Volto após o concerto.
Ficamos conversando como dois amigos antigos até o bota-fora. Passamos por diversos assuntos, daqueles de “esperar o trem”, inclusive futebol, ele, fanático pelo tricolor carioca, eu, palestrino. Acompanhei-o até o hotel e finalizamos no belíssimo Bar Atenas, do Stream Palace, onde aconteceu um porre homérico, um encontro memorável que nunca esqueci.
Quando o Pinguim completou 75 anos, a TV Cultura solicitou uma matéria sobre a sua história. Paulo Ferreira, querido amigo e sócio-proprietário, procurou-me alegando que não poderia participar devido a uma viagem urgente a Belo Horizonte, Disse que eu seria a única pessoa capaz de substituí-lo na entrevista, pois nem ele mesmo conhecia tão bem a trajetória da casa como eu.
Senti-me emocionado e honrado pela confiança. Na data marcada, a equipe chegou com uma belíssima repórter e toda a parafernália. O local estava preparadíssimo, o Luizão foi o nosso garçom.
Foi um diálogo intenso, diversas perguntas. Respondi a todas explicando os detalhes, uma ficou marcada pela lenda que sempre corria e que contribuía para a fama nacional da casa: o mito de que um duto subterrâneo levava o chope da antiga Companhia Antarctica Paulista, direto para as torneiras da unidade na Praça XV de Novembro.
Como bom mineiro, respondi:
– Não sei se é verdade ou mentira, mas, numa manhã, notei a pontinha de um cano de bronze surgindo de um paralelepípedo solto.
Ela sorriu e continuamos os nossos chopinhos, saboreando as deliciosas porções do lugar.
Em outro momento, encontrava-me sorvendo as tulipas, amigo de todos os garçons, um deles sério, compenetrado, mas extremamente irônico, de codinome, Gaúcho.
Foi quando três clientes foram até a minha mesa e um deles, muito admirado, indagou:
-O senhor é o dono do Pinguim?
Constrangido, com a voz quase sumida, balbuciei:
– Sou!
– Que honra! Muito prazer! Somos de Fortaleza, nosso sonho era conhecer o Pinguim.
Emocionados, retornaram à mesa. Ao final, um deles questionou-me:
– Pedimos a “saideira” mas o garçom alegou que a norma da casa é não conceder, devíamos pedir ao senhor.
Na hora, dei o troco ao Gaúcho:
– Se ele pagar a rodada fica autorizado.
* Professor, escritor e agente cultural

