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A traição da pátria: saudade de dignidade


Feres Sabino *
feressabino.com.br

No prédio da Avenida Atlântica 3.210, Copacabana, os passantes curiosos deparam-se com uma placa, na fachada do prédio São Carlos do Pinhal, que nos oferece à leitura: “Leonel Brizola, Governador do Rio de Janeiro por duas vezes, Governador do Rio Grande do Sul. Aqui residiu desde seu retorno do longo exilio. Foi um símbolo de coerência e honradez”.

Depois da governança de Brizola, o Estado teve   cinco governadores presos e dois afastados.Esse período das prisões sucessivas coincide com o crescimento do bolsonarismo, com o prestígio das milícias e da violência.

O ato-fato revelador dessa época é a condecoração do então Adriano da Nobrega pelo deputado estadual, Flávio Bolsonaro. O militar era ex-capitão do Bope do Rio de Janeiro, conceituado matador, o maior deles, que recebeu a Comenda Independência, na prisão, quando estava preso,acusado de assassinato.

Ainda, o matador tinha sua mãe e sua mulher lotadas, como servidoras fantasmas,no gabinete do deputado, que foi denunciado em 2020 pelo Ministério Público do Rio de Janeiro,onde  elas eram vítimas das “rachadinhas”, ou seja, da entrega de parte substancial de sua remuneração ao titular, e que tinha como chefe de gabinete o militar aposentado Fabricio Queiróz, que a denúncia qualifica-o como operador desse sistema podre.

O Rio de Janeiro deve uma explicação à história brasileira esclarecendo esse enigma histórico: como uma cidade com a maior concentração de militares, porque sedia a Marinha, o Exército e a Aeronáutica, com seus respectivos serviços secretos, puderam assistir.impassível e indiferente, o crescimento do crime organizado, a ponto de dizê-lo, que está em São Paulo, descoberto no seu centro financeiro da Faria Lima, como está em Prefeituras de Estados e até na floresta amazônica.

Esse crime organizado visa o lucro extravagante, imoral, fraudulento e criminoso e não a derrubada do Estado, diferentemente dos grupos apontados de terroristas pelo governo norte-americano. Aliás, esse reconhecimento é do império colonizador que reitera a exibição de sua força e poder, especialmente militar,ao país colonizado, considerado objetivamente de seu quintal.

Nesse mesmo Rio de Janeiro que tivera a semeadura, então recente,da prática política da honradez e da coerência, na atuação de Brizola,em defesa de nossas riquezas e da nossa soberania, assistiu a emergência dessa escumalha, que macula a dignidade das instituições e da política brasileira. A história da vida de Brizola deveria ser distribuída em cartilhas às crianças, aos estudantes, aos deputados, senadores, e aos também à cidadania brasileira.

Todos devem conhecer a história dessa liderança que foi entregador de carne, foi engraxate, ascensorista, jardineiro, e que estudou com muita dificuldade. Essa obrigação precisa ser comparada com a qualidade do candidato, candidato a Presidente da República senador ligado às milícias do Rio de Janeiro, que converteu o Senado Federal em escritório de vassalagem para pedir dinheiro, milhões, para transitar por canais clandestinos sob o pretexto de produzir um filme do papai. E, ainda, vai ao Estados Unidos, encontrando seu irmão-fugitivo, para pressionarem, juntos, o governo americano por atitudes punitivas contra o Brasil, na mais deslavada traição da soberania nacional. Traidores da pátria!

O impressionante é a paralisia de entidades de classe e da própria direção do Senado Federal e da Câmara dos Deputados, diante da reiterada atuação ilícita   de alguns desses parlamentares.

Brizola, o mais definido e temido e perseguido adversário do golpe de estado de 1º de abril de 1964, na sua longa carreira de político, mesmo na época da tecnologia de espionagem e da organização dos serviços secretos, nacional e norte americano, não conseguiram pregar-lhe qualquer arranhão ético na estatura moral e política do grande estadista brasileiro. Inigualável defensor da educação democratizada, no Rio Grande do Sul como governador construiu 6.300 escolas, denominadas “brizolões”, e  governador do Rio de Janeiro comandou a realização inovadora e transformadora  com os  CIEPs-Centros Integrados de Educação Pública, da educação integral, que sucessores seus souberam destruir, mediocremente.

Leonel de Moura Brizola tem, na sua densa e rica biografia o exemplo da coragem cívica, quando em 1961, para garantir a posse do vice João Goulart, com os seus discursos na Rede da Legalidade, enfrentou os militares golpistas, que finalmente conseguiram golpear as instituições brasileiras, em 1964.

O dever molenga substituiu a ética da honradez e da coerência.

* Procurador-geral do Estado no governo de André Franco Montoro e membro da Academia Ribeirãopretana de Letras

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