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Esperança colateral

Antonio Carlos A. Gama *
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No último dia 21, o Bruxo do Cosme Velho completou 187 anos.

Machado de Assis continua e é, na expressão de Álvaro Lins, “um exercício literário”. Mas não diz nada, e desliza, furtivo, sob os cochichos que se levantam nas esquinas, às suas costas.

Ao reler outro dia algumas páginas de “Quincas Borba”, dei com a expressão “esperança colateral”.

Rubião fitava a enseada, às oito horas da manhã, sem ver, ou sem admirar “aquele pedaço de água quieta”. Apenas “cotejava o passado com o presente”, aquele seu presente de capitalista, na casa de Botafogo, com os pés metidos em chinelas de Túnis. E reflete:

“Se mana Piedade tem casado com o Quincas Borba, apenas me daria uma esperança colateral. Não casou; ambos morreram, e aqui está tudo comigo; de modo que o que parecia uma desgraça…”

Acho que a expressão “esperança colateral” não é encontrada em nenhum outro autor ou obra.

A “esperança colateral” é de que vivemos muitos de nós, como a claridade da Lua que vem do Sol. Desfrutamos de reflexos e sobejos. O mesmo Machado, em outra parte de um de seus livros que agora não me disponho a buscar, fala do amigo do marido que à saída do teatro e ao descer a escadaria, dá o braço à formosa mulher do outro e, por um instante, goza das delícias do consorte, ao ter junto de si aquela formosa criatura que não é e jamais será sua. É apenas a sua esperança colateral…

Não podendo ser o próprio rei, sentimos em nós a glória dourada da monarquia se somos “amigo do rei”, ou pretendemos sê-lo. E sem as inconveniências do cargo, ou o pessoa das suas responsabilidades.

Na ausência do senhor da mansão inglesa, o mordomo veste o chambre dele, e passeia pelas salas atapetadas, olhando os quadros nas paredes, os bronzes, e vai buscar na caixa o charuto de Churchill, para fumar.

Há quem diga, porém, que prefere ser cabeça de mosquito em sua aldeia, a cauda de leão em Roma. Mentira. Na verdade, se puderem, vão vestir-se com a pele do rei da criação, e imitar o seu rugido na selva.

Nosso Código Civil dispõe sobre os “parentes colaterais” e os “afins”. Não havendo nenhum outro sucessor na linha, nem cônjuge sobrevivente, são chamados a suceder os colaterais até o quarto grau. Vivem eles, os parentes colaterais, dessa remota esperança de um dia se tornarem ricos, desaparecidos os outros sucessores.

Mas pode ser também que, enfarado de sua glória e de seus percalços, o grande homem aspire a outra coisa, até aquém da esperança colateral. E fecha-se o círculo com o mesmo Machado de Assis, com o seu soneto:

“Por que não nasci eu um simples vaga-lume?”

O Brasil tem vivido, e muito, de esperanças colaterais. As esperanças colaterais do melhor futebol do mundo, dos jogos, das loterias, do Carnaval e do samba. Não sendo a própria águia, somos a “Águia de Haia”. Ou vamos acender as luzes do porto, “para inglês ver”. Somos o celeiro do mundo, e aqui, em se plantando, tudo se dá. Mas o grão vai para a panela dos outros…

Por que aspirar a sermos como os estadunidenses, os ingleses, os franceses ou os alemães? A busca do êxito deve ser trocada pela busca da felicidade, pessoal e coletiva. Da tranquilidade interior. E, se nesses nossos tempos, tudo isso parece distante, ou a desgraça mostra-se por toda parte, não fomos propriamente nós, e muito menos só nós mesmos, que demos causa à miséria geral. Ela veio de fora, de uma estrutura política, social, econômica, monstruosa, de que todos padecemos. Nem adianta criar novas utopias. Antes, será preciso conviver com nossas deficiências, diagnosticá-las para as debelar, sem olvidar, todavia, que o homem é um animal naturalmente imperfeito.

* Promotor de Justiça, aposentado, advogado, professor de Direito e escritor

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