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A testosterona virou moda. E isso é preocupante

Luís César Zaccaro *
@dr.luiszaccaro

A testosterona nunca esteve tão em evidência. Impulsionada pelas redes sociais e pela busca por resultados rápidos na academia, ela passou a ser vista por muitos homens como um atalho para ganhar músculos, melhorar a aparência e aumentar a disposição. O problema é que testosterona não é suplemento. É hormônio. E hormônio interfere em praticamente todo o organismo.

Nos últimos anos, temos assistido a uma banalização preocupante do seu uso. A ideia de que existe uma solução simples para cansaço, perda de libido ou insatisfação com o próprio corpo tem levado homens jovens e adultos a recorrerem à testosterona sem necessidade clínica e sem acompanhamento médico adequado.

Isso é especialmente grave porque o uso indiscriminado dessas substâncias está longe de ser inofensivo. Os riscos incluem trombose, alterações do colesterol, hipertensão, problemas hepáticos, arritmias, insuficiência cardíaca e até morte súbita. Estudos citados pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia mostram que usuários de anabolizantes apresentam uma taxa de mortalidade até três vezes maior que a da população geral.

Outro aspecto que costuma surpreender os pacientes é o impacto na fertilidade. Ao receber testosterona de forma externa, o organismo reduz ou interrompe sua produção natural. Os testículos diminuem a atividade, a produção de espermatozoides cai e a infertilidade pode surgir. Não são raros os casos de homens jovens com alterações importantes no espermograma justamente após o uso prolongado dessas substâncias.

Existe ainda um paradoxo curioso: medicamentos utilizados na tentativa de melhorar o desempenho físico e sexual podem, com o tempo, provocar queda da libido e até disfunção erétil.

É importante deixar claro que a reposição hormonal possui indicações médicas bem estabelecidas. A Deficiência Androgênica do Envelhecimento Masculino, por exemplo, afeta parte dos homens acima dos 50 anos e pode causar redução do desejo sexual, perda de massa muscular e fadiga. Mas o diagnóstico exige sintomas compatíveis e confirmação laboratorial. Reposição hormonal é um ato médico, não uma tendência de estilo de vida.

Nem todo homem cansado ou com diminuição da libido está com testosterona baixa. Sono inadequado, sedentarismo, obesidade, estresse e ansiedade podem explicar muitos desses sintomas. Tratar tudo com hormônio é simplificar excessivamente uma questão complexa.

Vivemos uma época em que a pressão estética também alcançou os homens. O chamado “shape perfeito” passou a ser associado a sucesso, saúde e felicidade. Mas saúde não se constrói com atalhos.

Alimentação equilibrada, atividade física regular, sono adequado, controle do peso e acompanhamento médico continuam sendo as formas mais seguras e eficazes de preservar a saúde hormonal ao longo da vida.

A testosterona tem um papel fundamental no organismo masculino. Justamente por isso, merece ser tratada com responsabilidade e não como mais um produto da moda.

* Urologista, uro-oncologista e cirurgião robótico, delegado da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU-SP) e diretor do GEURP – Grupo de Estudos em Uro-Oncologia de Ribeirão Preto

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