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Doenças silenciosas ameaçam a visão

Demora para ribeirão-pretano conseguir uma consulta no SUS é de seis meses | Divulgação

Na semana em que se comemorou o Dia Mundial da Saúde Ocular, sexta-feira, 10 de julho, dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que 2,2 bilhões de pessoas vivem com deficiência visual no mundo. Desse total, ao menos 1 bilhão de casos poderiam ter sido evitados ou tratados precocemente, reforçando a importância do acompanhamento oftalmológico regular.

Já no Brasil, a estimativa é que cerca de um quarto da população brasileira, cerca de 50 milhões de pessoas, convive com algum problema de visão. Entre as doenças mais prevalentes estão glaucoma, catarata, retinopatia diabética e degeneração macular relacionada à idade. Em muitos casos, a evolução ocorre sem sintomas nas fases iniciais, reduzindo as chances de preservar totalmente a visão quando o diagnóstico é tardio.

Segundo o oftalmologista Bruno Stella, do Hospital Beneficência Portuguesa de Ribeirão Preto, o maior desafio é que muitas doenças oculares não provocam dor nem alterações perceptíveis no início. “Quando o paciente procura atendimento porque percebe dificuldade para enxergar, parte da visão pode já estar comprometida. A boa notícia é que a maioria dessas doenças pode ser controlada ou tratada quando identificada precocemente”, explica o oftalmologista.

O oftalmologista Bruno Stella afirma que, na maioria dos casos quando o paciente procura atendimento parte da visão já está comprometida | Divulgação

O especialista destaca ainda que pessoas acima dos 40 anos, diabéticos, hipertensos e quem possui histórico familiar de doenças oculares devem manter acompanhamento periódico com o oftalmologista. “A consulta preventiva é um investimento em qualidade de vida. Enxergar bem significa manter autonomia, segurança e bem-estar em todas as fases da vida”, completa.

Além das consultas regulares, hábitos como controlar doenças crônicas, não fumar, manter alimentação equilibrada, utilizar proteção contra os raios ultravioleta quando indicada e fazer pausas durante o uso prolongado de telas também contribuem para preservar a saúde dos olhos.

Em Ribeirão Preto, o tempo médio para um paciente conseguir uma consulta em oftalmologia na Rede Municipal de Saúde de Ribeirão Preto, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde é de seis meses. Já o para conseguir uma cirurgia de catarata, o tempo médio aumenta em mais 4 meses.

Na Rede Pública Municipal, quando uma pessoa apresenta queixas relacionadas à visão, deve procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS). Lá, é feita a triagem e o seu encaminhamento para um oftalmologista dos prestadores de serviços sem que seja necessário aguardar consulta com o médico da unidade. O encaminhamento é feito para o prestador de serviços mais adequado para atender o tipo de necessidade do paciente.

Maioria da população em situação de rua de RP nunca fez exame

Estudo desenvolvido pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto revelou que mais de um terço da população em situação de rua da cidade nunca passou por um exame oftalmológico, enquanto outra parcela semelhante está há mais de cinco anos sem qualquer avaliação da visão.

Atualmente estima-se que cerca de 2 mil pessoas estejam em situação de rua em Ribeirão Preto. Destas, aproximadamente 72% estão cadastradas no programa Bolsa Família e residem na cidade há mais de um ano.

O estudo investigou a saúde ocular dessa população, expondo barreiras que vão além da oferta de serviços, como falta de documentos, dificuldade de acesso, estigma social e prioridades ligadas à própria sobrevivência. A pesquisa, adaptou métodos tradicionais para alcançar essa população, historicamente invisibilizada pelas estatísticas.

Para participar do estudo, os voluntários tinham que ter mais de 18 anos, estar em situação de rua no momento da abordagem e viver em Ribeirão Preto. Ao todo, 518 pessoas foram convidadas. Dessas, 491 aceitaram participar e 461 concluíram todas as etapas dos exames oftalmológicos, números considerados altos para estudos com populações de difícil acesso.

A amostra foi composta principalmente de homens (84,8%), com maior concentração entre 40 e 59 anos (51,0%). Quase metade relatou estar em situação de rua havia até um ano (47,5%); 55,7% tinham até oito anos de escolaridade; 33,8% nunca haviam feito exame oftalmológico e 33,2% relataram que o último exame havia sido realizado há mais de cinco anos.

Segundo o professor da FMRP João Marcello Furtado, principal autor do estudo, enfrentar essa lacuna importante do conhecimento foi a principal motivação. “As pesquisas oftalmológicas tradicionais costumam depender de domicílios, endereços fixos e bases censitárias, o que acaba excluindo pessoas em situação de rua.

População em situação de rua é pouco visível nas estimativas de deficiência visual | Foto: Alfredo Risk

O professor ressaltou que a população em situação de rua, permanece pouco visível nas estimativas de deficiência visual, cegueira e acesso a cuidados oftalmológicos. Por isso, o estudo “nasceu justamente da necessidade de produzir dados mais inclusivos e de entender melhor as barreiras reais de acesso ao cuidado ocular em um grupo social altamente vulnerável, mesmo em uma cidade com boa infraestrutura e com presença de serviços especializados como Ribeirão Preto”.

A pesquisa foi realizada em abrigos, centros de apoio municipais e instituições sociais parceiras. Os pesquisadores optaram por não fazer coletas diretamente nas ruas ou em espaços abertos, tanto por questões de segurança como pela necessidade de condições adequadas para a realização dos exames.

“Na prática, a equipe levou o exame oftalmológico até os locais onde essa população já estava sendo atendida, como centro especializado, abrigos e instituições parceiras. Isso incluiu visitas repetidas, coordenação prévia com as equipes locais e uso de equipamentos portáteis para avaliação visual, refração, pressão intraocular, biomicroscopia, exame de fundo de olho e fotografia de retina”, explicou o professor.

A adaptação foi necessária porque não havia como aplicar um modelo convencional de amostragem populacional, nem depender de comparecimento posterior a clínicas. Além disso, os pesquisadores forneceram óculos gratuitamente aos participantes que precisavam de correção visual, enquanto casos considerados mais graves foram encaminhados para atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS)

Além dos dados clínicos e sociais, a pesquisa trouxe aprendizados práticos sobre o atendimento dessa população. O professor aponta a entrega imediata de óculos como uma solução importante. “Essa estratégia faz diferença porque o seguimento é difícil. Em uma população com alta mobilidade e grande instabilidade, depender de retorno posterior reduz muito a chance de o benefício realmente chegar à pessoa”. O estudo foi divulgado pelo jornal da USP.

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