Por: Adalberto Luque
Durante muito tempo, os roubos dominaram as estatísticas criminais de Ribeirão Preto e figuraram entre as principais preocupações de moradores, comerciantes e autoridades de segurança. Ao longo da última década, porém, esse cenário mudou de forma significativa. Os dados oficiais da Secretaria da Segurança Pública (SSP/SP) mostram que os crimes patrimoniais recuaram de maneira consistente, especialmente a partir de 2020, enquanto outros indicadores passaram a ganhar maior representatividade nos registros policiais.
A análise realizada pelo Tribuna Ribeirão reúne os dados oficiais divulgados pela SSP entre 2016 e 2025, além das ocorrências registradas entre janeiro e maio deste ano. Embora a violência não siga comportamento linear e cada indicador possua dinâmica própria, a série histórica permite identificar movimentos consistentes, alguns bastante distintos daqueles observados no início do período.
Em 2016, ano utilizado apenas como referência histórica, Ribeirão Preto contabilizou 51 homicídios dolosos, 55 tentativas de homicídio, oito latrocínios, 3.730 roubos, 722 roubos de veículos, 10.339 furtos e 2.095 furtos de veículos. No ano seguinte, quando a SSP passou a divulgar parte dos indicadores em formato padronizado, a cidade iniciou uma trajetória marcada por mudanças importantes, sobretudo nos crimes contra o patrimônio.
Mais do que comparar um ano com outro, a série histórica revela alterações graduais. Em alguns casos, a mudança ocorreu de forma lenta e contínua. Em outros, o comportamento dos indicadores foi influenciado por momentos específicos, como a pandemia da Covid-19, que alterou a circulação de pessoas e, consequentemente, o perfil de diversos crimes registrados em todo o Estado.
Roubos deixam de liderar a criminalidade
Poucos indicadores mudaram tanto ao longo da última década quanto os roubos. Em 2017, Ribeirão Preto registrou 3.715 roubos em geral. Era um patamar elevado, compatível com uma realidade em que esse crime ocupava posição central nas estatísticas da cidade. Nos dois anos seguintes, os números começaram a recuar, chegando a pouco menos de três mil ocorrências em 2019. A queda se acentuou em 2020, quando as restrições da pandemia reduziram a circulação de pessoas e veículos.
Mesmo com a retomada das atividades econômicas e da mobilidade urbana nos anos seguintes, os roubos não voltaram aos níveis do início da série. Em 2025, Ribeirão Preto registrou 1.230 ocorrências, redução de aproximadamente 67% em relação a 2017. Trata-se de uma das quedas mais expressivas entre os principais indicadores acompanhados pela SSP.

Movimento semelhante ocorreu com os roubos de veículos. O total caiu de 730 registros, em 2017, para 188 no ano passado, redução de 74%. A diminuição foi praticamente contínua, interrompida apenas por pequenas oscilações anuais.
Os roubos de carga seguiram comportamento semelhante. Embora representem parcela reduzida das ocorrências, também apresentaram retração ao longo da década. Já os roubos a banco praticamente desapareceram das estatísticas oficiais, com registros esporádicos no período analisado.
Furtos e os números elevados
Embora também tenha encerrado o período em patamar inferior ao observado no início da série, esse indicador apresentou oscilações mais acentuadas. Em 2017, foram registrados 9.052 furtos. Nos anos seguintes, houve períodos de alta e queda, chegando a ultrapassar novamente nove mil ocorrências antes de voltar a recuar. Em 2025, o município contabilizou 7.920 furtos.
Essa diferença ajuda a explicar uma das principais mudanças da década. Enquanto os roubos diminuíram de forma consistente, os furtos permaneceram em níveis elevados, tornando-se proporcionalmente mais representativos entre os crimes patrimoniais.
Fenômeno semelhante ocorreu com os furtos de veículos. O indicador variou ao longo da série, mas terminou abaixo do registrado em 2017: foram 1.488 ocorrências naquele ano e 1.327 em 2025. A redução foi mais discreta que a dos roubos de veículos, indicando trajetórias distintas. Os roubos, em que o criminoso se expõe, caíram, enquanto os furtos, crimes de oportunidade, se mantiveram em alta.
No caso específico de furto e roubo de veículos, em muitos casos o produto do crime abastecia o mercado paralelo de peças. Os carros eram desmanchados. Com ações pontuais, fechamento e lacre de muitos desmanches, esse mercado passou a apresentar retração, contribuindo para a queda.
Quando a violência mata
Se os crimes patrimoniais desenharam uma curva de queda relativamente consistente ao longo da última década, a violência letal apresentou comportamento mais irregular. Os homicídios dolosos oscilaram durante boa parte da série histórica antes de encerrar o período no menor patamar desde que a SSP passou a divulgar os indicadores na atual metodologia.
Em 2017, Ribeirão Preto registrou 40 homicídios dolosos. No ano seguinte foram 46 casos. Em 2019 houve novo recuo, para 42 ocorrências, mas os registros voltaram a crescer em 2020 e atingiram o ponto mais elevado da série em 2021, com 56 vítimas. Em 2022 foram contabilizados 52 homicídios.

A redução ocorreu a partir de 2023. Naquele ano, os registros caíram para 32 casos e permaneceram no mesmo patamar em 2024. Em 2025, o município encerrou o ano com 29 homicídios dolosos, redução de cerca de 26% em relação a 2017 e de 45% quando comparado ao pico de 2021.
As tentativas de homicídio seguiram comportamento diferente. Em vez de uma trajetória claramente descendente, apresentaram oscilações durante praticamente toda a série. Depois de 38 registros em 2017, o indicador atingiu o maior número em 2022, com 67 ocorrências, voltando a cair até fechar 2025 com 41 casos. Embora os homicídios consumados tenham diminuído, as tentativas revelam que a dinâmica da violência entre pessoas não acompanhou integralmente esse movimento.
Os latrocínios passaram a representar parcela cada vez menor da criminalidade letal. Em 2017 foram registrados cinco casos. O número variou entre dois e quatro ocorrências anuais e chegou a apenas um caso em 2025.
Os dados parciais de 2026 mostram 24 homicídios dolosos, 18 tentativas de homicídio e um latrocínio entre janeiro e maio. Por se tratar de série incompleta, os números não permitem projeções seguras para o fechamento do ano. Mas nos casos de homicídio, mantida a tendência, pode haver alta.
A violência que cresceu
Enquanto roubos e homicídios encerraram a década abaixo dos níveis registrados no início da série, os crimes sexuais seguiram trajetória oposta.
A metodologia da SSP exige cautela nessa análise. Em 2016, a divulgação dos dados seguia estrutura diferente da utilizada atualmente. A partir de 2017, entretanto, a série tornou-se comparável e passou a evidenciar crescimento contínuo, sobretudo nos casos classificados como estupro de vulnerável.
Naquele ano, Ribeirão Preto contabilizou 60 estupros e 74 estupros de vulnerável. Em 2025, esses indicadores passaram para 68 e 171 ocorrências, respectivamente. Enquanto o estupro comum oscilou discretamente, os casos envolvendo vítimas vulneráveis mais do que dobraram.
As estatísticas oficiais indicam que o aumento pode decorrer de maior procura pelas autoridades, aperfeiçoamento dos mecanismos de denúncia, mudanças legislativas ou crescimento real das ocorrências, mas sem conclusão efetiva. A série apenas demonstra a ampliação dos casos registrados oficialmente pela SSP. Ainda assim, os estupros são subdimensionados, pois, em muitos casos, são praticados por pessoas próximas à vítima e dentro da própria residência, o que dificulta a denúncia.
Outro indicador que apresentou crescimento preocupante foram as lesões corporais dolosas, quando há intenção de ferir ou matar. Em 2017 foram contabilizados 1.744 registros. O número cresceu gradualmente até atingir 2.888 ocorrências em 2025, aumento superior a 65% no período e maior total desde o início da série padronizada.
Ao contrário dos roubos, cuja redução ocorreu de forma relativamente contínua, estupros e lesões corporais dolosas apresentam tendência de crescimento ao longo da década, tornando-se indicadores cada vez mais relevantes para compreender a evolução da violência registrada no município.
Os primeiros cinco meses de 2026 mantêm esse cenário sob observação. Até maio, a SSP contabilizava 36 estupros e 96 estupros de vulnerável. Pela média de 20 estupros de vulnerável por mês em 2026, os números são alarmantes. Em 2025, a média mensal foi de 14 casos. A comparação direta com anos completos, porém, seria metodologicamente inadequada.

Ao reunir uma década de estatísticas oficiais, o levantamento revela que a criminalidade em Ribeirão Preto não evoluiu de maneira uniforme. Os crimes patrimoniais apresentaram redução expressiva, especialmente roubos e roubos de veículos. A violência letal oscilou antes de atingir um dos menores níveis da série em 2025. Em sentido oposto, os registros de violência sexual e lesões corporais dolosas cresceram e passaram a ocupar espaço mais significativo entre as ocorrências registradas pela SSP.
Mais do que indicar se a violência aumentou ou diminuiu, a série histórica mostra que o perfil da criminalidade mudou. Comparações restritas entre anos costumam evidenciar apenas oscilações pontuais. A análise de uma década permite identificar tendências consistentes e compreender que diferentes modalidades criminosas seguiram trajetórias distintas, revelando às forças de segurança a importância de acompanhar cada indicador de forma individualizada.
O crime mudou de perfil
A última década foi marcada não apenas por mudanças nos indicadores criminais, mas também por uma transformação na atuação das organizações criminosas no País. Paralelamente às oscilações nas estatísticas da SSP, investigações revelaram estruturas cada vez mais diversificadas, capazes de atuar em diferentes frentes e movimentar grandes volumes de recursos.
Operações da Polícia Federal, dos Grupos de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaecos) e das polícias Civil e Militar identificaram esquemas de lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio e uso de empresas legalmente constituídas para dissimular recursos ilícitos. Entre os setores atingidos estão combustíveis, transportes, construção civil, logística, comércio e prestação de serviços, utilizados por facções para ampliar seu poder financeiro.
Ao mesmo tempo, a expansão da internet e da telefonia móvel impulsionou crimes que dispensam a presença física dos autores. Estelionatos eletrônicos, falsas centrais bancárias, golpes por aplicativos de mensagens, fraudes em compras online, invasões de contas e clonagem de perfis passaram a mobilizar estruturas especializadas das forças de segurança.

Os prejuízos costumam ser elevados. Muitas vítimas transferem economias acumuladas durante anos para contas de laranjas, acreditando proteger seus recursos ou realizar operações legítimas. Idosos figuram entre os principais alvos, sobretudo em golpes que exploram confiança, urgência e desconhecimento das ferramentas digitais. A recuperação do dinheiro é difícil, especialmente quando os valores são rapidamente pulverizados entre diversas contas ou enviados para outros estados e até para o exterior por meio de criptoativos.
A atuação remota também dificulta as investigações. Quadrilhas podem agir simultaneamente em vários estados, utilizar identidades falsas, contas em nome de terceiros, empresas de fachada e recursos tecnológicos que dificultam a identificação dos responsáveis. Muitas vezes, uma única organização faz vítimas em dezenas de cidades sem que seus integrantes precisem deixar a base onde estão instalados.
A Inteligência Artificial também passou a ser explorada pelos criminosos. Em um dos golpes, conhecido como “falsa ligação religiosa”, o golpista induz a vítima a responder expressões como “sim”, “aceito” ou “eu quero”. Posteriormente, esses trechos são isolados e a voz é recriada com auxílio da IA para contratação fraudulenta de empréstimos e outros crimes.
Essas modalidades não substituíram os crimes tradicionais registrados nas estatísticas oficiais, mas ampliaram o campo de atuação das organizações criminosas e impuseram novos desafios às instituições responsáveis pela prevenção, investigação e repressão das atividades ilícitas.
Hiatos
As estatísticas criminais disponibilizadas pela SSP para os municípios não permitem identificar, de forma individualizada, os casos de feminicídio. Nas planilhas utilizadas neste levantamento, essas ocorrências estão incluídas no total de homicídios dolosos. A Secretaria divulga os registros de feminicídio apenas em recortes agregados, como Interior, Capital, Grande São Paulo (Demacro) e Estado, o que dificulta muito a separação dos casos referentes exclusivamente a Ribeirão Preto.
Outra limitação da série histórica diz respeito aos crimes praticados em ambiente virtual. As estatísticas territoriais da SSP utilizadas nesta reportagem não possuem indicadores específicos para modalidades como estelionato eletrônico, fraudes bancárias, golpes por aplicativos de mensagens, furtos de valores por meios digitais e outros delitos dessa natureza. Assim, embora essas ocorrências tenham ganhado relevância nos últimos anos, sua evolução não pode ser acompanhada por meio da mesma base estatística utilizada para analisar homicídios, roubos, furtos e os demais indicadores tradicionais.
SSP aponta quedas acentuadas
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que utiliza os indicadores criminais para direcionar o policiamento ostensivo, as investigações e as operações de inteligência, com o objetivo de combater a criminalidade e ampliar a sensação de segurança da população.
A pasta destacou que, entre janeiro e maio deste ano, Ribeirão Preto registrou queda de 22,4% nos furtos, de 10,14% nos roubos e de 36% nos roubos de veículos, em comparação com o mesmo período de 2025. Segundo a SSP, “a redução observada nesses indicadores criminais reflete o trabalho integrado das forças de segurança, com investimentos em inteligência, tecnologia e reforço das ações de policiamento ostensivo e investigativo”. No período, ainda conforme a secretaria, 1,8 mil infratores foram presos ou apreendidos e 84 armas de fogo foram retiradas de circulação.

A SSP também afirmou que intensificou as ações de enfrentamento aos crimes contra a vida por meio do Programa SP Vida e destacou a estrutura estadual de combate à violência contra a mulher, que inclui 144 Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs), além de outros serviços especializados. Desde o início de 2023, segundo a pasta, 56,1 mil agressores foram presos ou apreendidos em flagrante por violência doméstica em todo o Estado.
Sobre os feminicídios, a secretaria informou apenas que a modalidade possui indicador próprio e que os dados estão disponíveis na plataforma SP Vida (https://www.ssp.sp.gov.br/estatistica/spvida). A nota, porém, não esclarece se haverá uma forma mais simples de consulta regionalizada dessas estatísticas nem responde ao questionamento sobre a inclusão dos crimes cibernéticos em indicadores específicos.

