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A IA no Conselho de Administração

Rodrigo Gasparini Franco *
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A ascensão da inteligência artificial nos centros nevrálgicos do poder corporativo atingiu um novo patamar de complexidade com a decisão histórica do Samruk-Kazyna, o fundo soberano do Cazaquistão. Ao nomear formalmente, no início de 2025, o sistema batizado como “SKAI” como membro votante de seu conselho de administração, a instituição não apenas testou os limites da tecnologia, mas forçou uma reavaliação sobre a natureza da governança moderna. O debate que se segue não se limita à substituição de humanos por máquinas, mas se concentra em como a integração de algoritmos de alta performance pode alterar a qualidade das decisões estratégicas que moldam economias inteiras.

A inclusão da SKAI no conselho representa uma tentativa de mitigar vieses cognitivos e limitações humanas inerentes ao processo de escolha. Um sistema de IA possui a capacidade singular de processar volumes monumentais de dados em tempo real, cruzando variáveis macroeconômicas, flutuações de mercado e indicadores de risco com uma velocidade e precisão inalcançáveis por qualquer analista. Sob essa ótica, a qualidade da governança tenderia a melhorar significativamente, uma vez que o conselho passa a contar com um “membro” imune ao cansaço, a pressões políticas imediatistas ou ao excesso de confiança que muitas vezes leva executivos a erros dispendiosos. A IA oferece uma base empírica sólida, servindo como um contraponto racional em discussões frequentemente dominadas por retóricas subjetivas.

No entanto, a ideia de que a IA pode simplesmente “substituir” um conselheiro humano é uma interpretação equivocada da realidade operacional e jurídica. No caso do Samruk-Kazyna, a nomeação da SKAI não significa a exclusão do julgamento humano, mas sim a sua ampliação. Isso ocorre porque, embora o algoritmo possua direito a voto, ele carece da chamada “prudência administrativa” e da responsabilidade fiduciária legal, que permanecem ancoradas nos membros humanos e nos desenvolvedores que balizam os parâmetros éticos do sistema. A IA não substitui o conselheiro pelo algoritmo porque a decisão final ainda transita por um ecossistema de valores, ética e visão de longo prazo que a tecnologia, por mais avançada que seja, ainda não consegue replicar de forma autônoma.

A qualidade da gestão, portanto, depende do equilíbrio entre a eficiência algorítmica e a sabedoria humana. Se por um lado a IA melhora a precisão técnica, por outro, o risco de “alucinações” ou a dependência de dados históricos enviesados poderia piorar as decisões se não houvesse uma supervisão crítica constante. O modelo adotado pelo fundo cazaque sugere que o conselheiro do futuro não é uma máquina, mas uma simbiose onde o humano utiliza a IA para enxergar o que os olhos não veem, enquanto a máquina depende do humano para compreender o contexto cultural e social das decisões. No fim, a SKAI no conselho de administração funciona menos como uma substituição e mais como um espelho de alta definição do mercado, forçando os conselheiros de carne e osso a elevarem o próprio nível de debate e responsabilidade diante de uma inteligência que, embora vote, não sente o peso das consequências.

* Advogado e consultor empresarial de Ribeirão Preto, mestre em Direito Internacional e Europeu pela Erasmus Universiteit (Holanda) e especialista em Direito Asiático pela Universidade Jiao Tong (Xangai)

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