Tribuna Ribeirão
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O outro: eu mesmo, em outra história

Prof.ª Dr.ª Maria Helena da Nóbrega *
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Fazer compras no supermercado me possibilita experiências sociológicas. Entre as prateleiras, onde cabem apenas dois carrinhos lado a lado, a proximidade entre as pessoas é previsível. Mesmo assim, a maioria evita qualquer tipo de contato, inclusive o visual. Se um carrinho encostar levemente no outro, a reação usual é sair chispando, como se tivesse sido agredido.A tentativa de ajudar, então, é repelida com mau humor. Bom dia, boa tarde não encontram eco. Assim fica difícil manter-se humano, gente!

Quando se encontram, dois cachorros se cheiram – faz parte da socialização deles. Nas trilhas, as formigas tocam as antenas e reconhecem-se dando uma cheiradinha uma na outra. No caso dos humanos, reservamos o olfato para outras situações – ufa! – e optamos por nos saudar pelo olhar, pelo cumprimento verbal. Parece uma boa escolha. O sorriso também serve para demonstrar o reconhecimento do outro. São atitudes cordiais ritualizadas, importantes para criar harmonia social nas interações cotidianas.

No entanto, parece que esses sinais de civilidade vêm se fragilizando. Quando se parte do princípio de que o outro é inimigo, é claro que o encontro será permeado por agressividade, como as que vemos facilmente no trânsito. Todos querem ir na frente, mesmo que seja pelo acostamento, e têm até uma justificativa para isso: “Estou com pressa”.

São 8 bilhões de pessoas especiais, uma mais importante do que a outra. “Quero ser atendido agora” – vociferam para os profissionais da saúde. Aliás, vem aumentando a violência contra médicos e enfermeiros, sobretudo se mulheres. Nas filas, as prioridades por lei são questionadas aos berros: “Mas só porque é velho vai passar na minha frente?”.E os 8 bilhões de pessoas seguem envelhecendo, todos, todo dia.

Até a sonegação de impostos figura entre os privilégios que os privilegiados buscam alcançar. “Todo mundo sonega. Então, vou sonegar também.” A justificativa alivia a responsabilidade individual e culpabiliza os outros. “Eu seria honesto, se os outros fossem.”Eita!

Sem solidariedade orgânica e traços de civilidade, as diferenças se evidenciam. “Você sabe com quem está falando?”serve para tornar legítima a sobreposição de interesses particulares acima do bem comum, pois uns são mais importantes do que outros numa sociedade que exacerba as desigualdades.

São 8 bilhões de digitais diferentes, com impressões do mundo distintas. O que e como tocar é sentido de formas variadas por cada um. São 8 bilhões de pupilas diferentes, olhando para o mundo por óticas díspares.

O código genético de cada pessoa, o DNA, é único. Até a voz é distinta. É precisamente essa diversidade que cria sociedades mais ricas e aptas a resolver problemas complexos. Aliás, o Brasil está no topo mundial em diversidade genética, fruto da miscigenação entre indígenas, africanos e europeus. Além disso, nossa fauna, flora e ecossistemas contêm a maior biodiversidade do mundo. Toda a nossa riqueza reside na diferença.

Além da evolução biológica, somos formados por aspectos psicológicos e sociais: a cultura em que fomos criados, a genética, a família, o ambiente, nossas experiências de vida. Várias vezes ouvimos histórias sobre irmãos que se tornaram tão diferentes, apesar de terem sido criados na mesma família, pela mesma mãe e pelo mesmo pai. Esquecemos que os pais que criam o segundo filho não são os mesmos que criaram o primeiro. Além disso, o filho mais velho não teve a experiência de ser o caçula.

Já que a diversidade é a regra, não deveríamos nos surpreender com as diferenças. Ora, o outro é diferente – na fala, nas ações, nos gostos, nas escolhas de toda ordem, inclusive políticas – porque teve outra vivência. Ele não poderia enxergar os fatos como eu, porque vive na sua singularidade irreplicável. Ele faz escolhas distintas porque esteve em caminhos por onde não andei. Não há vida que abarque todas as experiências disponíveis no mundo.

O respeito nas interações diárias, cumprimentar, pedir licença, desculpar-se, agradecer, saber ouvir, ser solidário são atitudes de cortesia para mitigar as diferenças e fazer lembrar o que temos em comum: somos da mesma espécie, somos seres humanos.Quem seria eu, se tivesse vivido as experiências que o outro viveu?

As redes sociais vêm investindo em bolhas que repelem pontos de vista divergentes e instigam nós contra eles. É preciso um esforço diário para lembrar que o outro sou eu mesmo em outras circunstâncias. As mesmas dores, o mesmo desejo de ser feliz, em outra história. Sorrir para ele, cumprimentá-lo, reverenciá-lo é valorizar a mesma humanidade que está em mim.

* Professora aposentada da Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

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