André Luiz da Silva *
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Há coisas que só a tecnologia poderia nos proporcionar: voltar ao passado sem sair do sofá, sem máquina do tempo e, melhor ainda, sem enfrentar novamente a inflação.
A trend do momento é produzir imagens com roupas, cabelos e cenários dos anos 1980. Eu também entrei na brincadeira. Apareci com um farto cabelo black power, jaqueta jeans e roupas coloridas. Confesso: até que ficou legal.
Milhões fazem o mesmo. Parece apenas diversão, mas algumas empresas utilizam nossas imagens para treinar suas inteligências artificiais. Nós fornecemos as fotografias e ainda ajudamos a máquina a ficar mais inteligente.
Como toda moda, esta provavelmente terá seus vinte dias de fama. Depois virá outra. Mas a brincadeira revela algo interessante: muita gente tenta voltar para um tempo que não viveu, como se fosse possível entrar numa fotografia e fazer parte de uma história maior que a própria vida.
E nós, que vivemos aquela época, talvez tenhamos esquecido como ela realmente foi, porque os anos 1980 não tinham esse filtro bonito.
No Brasil, foram anos marcados pelo fim da Ditadura, pelas Diretas Já e pela Nova República. João Figueiredo (1979–1985) foi o último presidente do regime militar. José Sarney (1985–1990) tornou-se o primeiro presidente civil após a ditadura, depois da doença e morte de Tancredo Neves.
Na economia, a fotografia era bem menos colorida. A Crise da Dívida Externa, consequência do endividamento dos anos 1970, castigava o país. O Brasil havia financiado seu crescimento com grandes empréstimos em dólar e juros flutuantes. No início da década, os Estados Unidos elevaram drasticamente os juros, tornando a dívida brasileira ainda mais pesada.
A inflação, que em 1980 era de quase 100% ao ano, chegou a 1.700% em 1989. Economia estagnada, desemprego e arrocho salarial completavam o cenário. Não por acaso, o período ficou conhecido como Década Perdida.
Mas havia música. Se a política ocupava as ruas, o rock ocupava os rádios. Titãs, Legião Urbana e Barão Vermelho deram voz a uma geração. E o mercado, sempre atento, percebeu o filão: em 1985 nasceu o primeiro Rock in Rio.
Nós, que não tínhamos acesso ao festival, assistíamos pela televisão. Gravávamos músicas em fitas K7, disputando espaço com o locutor. Filmes chegavam em VHS e, para não pagar multa na locadora, a velha caneta ajudava a rebobinar a fita.
As crianças da classe média tinham Atari, com Enduro e River Raid. Outras, no máximo, um Aquaplay da Estrela. E ninguém precisava atualizar aplicativo para se divertir.
Havia, porém, um país que não cabia naquela fotografia colorida.
A população negra enfrentava uma desigualdade socioeconômica muito mais intensa que a atual. O black power, que hoje pode aparecer como detalhe estético numa imagem criada por IA, era expressão de identidade, afirmação e pertencimento.
Enquanto isso, o mundo também procurava demonstrar solidariedade. O Live Aid, organizado pelo músico irlandês Bob Geldof, reuniu artistas em uma grande mobilização humanitária. “We Are The World”, composta por Michael Jackson e Lionel Richie, reuniu 45 ídolos norte-americanos no projeto USA for Africa.
Também havia guerras. A Guerra Irã-Iraque (1980–1988), a invasão soviética do Afeganistão (1979–1989) e a Guerra das Malvinas, entre Argentina e Inglaterra, deixaram milhares de mortos. Esta última voltou a ser lembrada na recente Copa do Mundo.
Por isso, olho para minha fotografia criada pela inteligência artificial e sorrio.
O cabelo está perfeito. A jaqueta também. As cores parecem ter saído de uma propaganda, só faltou colocar a inflação no fundo da imagem.
Sou um adepto crítico da inteligência artificial. Reconheço seus benefícios, mas ela também tem a habilidade de deixar tudo mais bonito do que foi.
Talvez essa seja a diferença entre memória e inteligência artificial: a memória guarda as imperfeições. E talvez seja justamente delas que precisamos.
Mais importante do que criar fotografias perfeitas de um passado idealizado é construir, hoje, uma sociedade capaz de produzir boas lembranças amanhã.
Porque estar bem na foto não significa parecer jovem, bonito ou pertencer a uma época que já passou. Significa olhar para a fotografia da própria vida e descobrir que, em algum momento, fomos importantes para alguém.
Isso, sim, merece ser lembrado.
* Servidor municipal, advogado, escritor e radialista

