Rosemary Conceição dos Santos*
De acordo com especialistas, Juan Manuel Roca é um poeta colombiano nascido em Medelín, em 1946. Agraciado com inúmeros prêmios, e reconhecido pela crítica, é considerado um dos poetas mais importantes da América Latina. Sua poesia tem uma forte marca de empenho social, embora seja sempre atravessada de um lirismo que gera imagens insólitas e alcança expressividade universal para além da retórica política. O poema “Uma Carta Rumo a Gales” integra o livro “País Secreto”, de 1987. Nele, o poeta utiliza o gênero carta e aproveita-se do seu caráter intimista para mostrar, através da construção de imagens que fogem tanto do nacionalismo pitoresco quanto da crítica inconsequente, as contradições da experiência nacional colombiana. A marca do trabalho explorado, sutilmente distingue a relação do local com o universal e exprime a radicalidade política do belíssimo texto. Apresentamos o mesmo abaixo.
“Me perguntas, doce senhora, O que vejo hoje deste lado do mar. Habitam-me as ruas deste país Desconhecido por ti, Estas ruas onde passear é fazer Uma viagem pela chaga, Onde vagar na claridade É encher os olhos de vendas e murmúrios. Me perguntas O que sinto hoje deste lado do mar. Um formigar no corpo, A luz de um manicômio Que chega serena para tratar As mais profundas feridas Nascidas de um povoado de dias incolores. E o sol? O sol, um velho drogado que lambeu essas feridas. Porque sabes, doce senhora, Este país é uma confusão de ruas e de feridas. Declaro-te: Aqui há palmeiras cantoras Mas também há homens torturados. Aqui há céus completamente nus E mulheres curvadas ao pedal da Singer Que poderiam chegar em seu louco pedalar Até Java e Bordeaux, Até o Nepal e o teu povoado em Gales, Onde suponho que bebia sombras Teu querido Dylan Thomas. As mulheres deste país são capazes De pregar um botão no vento, De vesti-lo de organista. Aqui crescem juntas a raiva e as orquídeas, Não entendes o que seja um país Como um velho animal conservado Nos mais variados álcoois, Não entendes o que é viver Entre luas de ontem, mortos e despojos”.
Estando em Lisboa, a convite da Casa da América Latina e da Embaixada da Colômbia, assim se expressou o poeta sobre sua literatura: “Poesia é uma forma de pensar… A poesia é igual à filosofia nesse sentido. Pessoas que busquem caminhos distintos, no caso da poesia: poemas que partam de imagens e de ritmos, mas não necessariamente de ideias ou de sentimentos. Tanto a poesia ideológica como a excessivamente sentimental são algo com o que não tenho particular afecto, mas penso que há cada vez mais leitores de poesia que vêem a poesia como uma forma de respirar e andar pelo mundo, não como uma arte puramente estetizante…”.
Professora Universitária*





