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Psicologia & Neurociência (16): Racismo – A Dor invisível do outro

José Aparecido Da Silva*

 

Imagine a cena: você está caminhando distraidamente pela casa e, de repente, bate com força o dedão do pé na quina de um móvel. A reação é instantânea. Uma descarga elétrica sobe pelo corpo, o coração acelera e uma careta inevitável de sofrimento toma conta do seu rosto. Agora, mude o cenário. Imagine alguém que entra em um estabelecimento e, simplesmente pela cor de sua pele, recebe um olhar de desdém, um desvio de calçada ou um sussurro hostil. Para a física, o primeiro evento é um impacto mecânico; o outro, uma interação social. Para o cérebro humano, no entanto, a diferença entre essas duas agressões quase não existe. Expliquemos isso.

A neurociência social trouxe um veredicto fascinante e perturbador: a dor da rejeição, do menosprezo e da exclusão não é uma metáfora poética. Ela é uma realidade física, tangível e mensurável dentro do nosso crânio. Quando uma pessoa é vítima de racismo, o seu cérebro aciona exatamente os mesmos circuitos anatômicos, as mesmas redes de alarme e os mesmos neurotransmissores que são ativados quando sofremos uma lesão corporal grave. Para entender por que isso acontece, precisamos fazer uma viagem no tempo. Na nossa história ancestral, quando vivíamos em pequenas tribos nas savanas, a sobrevivência dependia inteiramente do grupo. Ser expulso do bando ou sofrer o desprezo dos seus pares equivalia a uma sentença de morte iminente por fome ou predação. Para garantir que evitássemos o isolamento, a seleção natural não se deu ao trabalho de criar um sistema de alerta totalmente novo; ela simplesmente sequestrou o sistema de dor física que já existia. O cérebro, então, passou a registrar a rejeição social com o mesmo grito de socorro biológico de um osso quebrado.

Essa dor se manifesta de formas tão complexas quanto as próprias faces do preconceito. O racismo interpessoal — aquela ofensa direta, o julgamento apressado no cotidiano — funciona na mente como o impacto de um soco. Ele ativa uma região chamada córtex cingulado anterior dorsal, que processa a angústia da dor, gerando um estado de alerta imediato no sistema de defesa do corpo. Já o racismo estrutural, aquele que se disfarça nas barreiras invisíveis do mercado de trabalho e na negação de oportunidades, assemelha-se a uma dor crônica e debilitante. É o equivalente neurológico ao desamparo e ao isolamento prolongado. Essa pressão constante esgota a nossa energia mental, desgasta o sistema imunológico e inunda o organismo com hormônios do estresse, acelerando o envelhecimento das células.

O racismo cultural, que ridiculariza ou apaga a identidade e a história de um grupo, age como uma microagressão diária — sutil, persistente e invisível como o ar que respiramos. Ele mantém o sistema de ameaça do cérebro, comandado pela amígdala, em um estado de vigilância perpétua. É a dor de nunca poder baixar a guarda. Curiosamente, a ciência também descobriu uma forma de natural para essa ferida. Quando a vítima compreende que a rejeição não é uma falha pessoal, mas sim um reflexo do preconceito do agressor, o cérebro consegue desviar a atividade da rede de dor imediata para áreas dedicadas à regulação emocional, servindo como um escudo protetor contra o sofrimento direto.

A neurociência nos ensina que a empatia, o acolhimento e a busca por igualdade não são apenas conceitos morais ou bandeiras políticas. Em termos puramente biológicos, promover uma sociedade livre de racismo é, antes de tudo, uma questão de saúde pública. É o anestésico que cura o tecido social de uma dor real que, embora silenciosa, sangra em silêncio dentro de milhões de mentes todos os dias.

Professor Titular Sênior da USP-RP*

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