Taís Roxo *
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Às três horas da manhã da madrugada de sexta-feira, 24 de julho, minha cachorra Malú, que dorme no quintal, começou a chorar. Ela é de uma calma que chega a causar inveja. Não late, não chora, não se desespera. Mas, naquela madrugada a Malú chorava sem parar. Era como se percebesse, antes de nós, que alguma coisa estranha estava acontecendo.
Mais tarde, perto das cinco da manhã, eu e meu marido ouvimos um barulho violento na porta do andar de baixo do sobrado onde moramos, no Centro de Ribeirão Preto. Parecia um arrombamento, uma pessoa batendo contra a porta sem parar. Meu marido gritou: quem está aí e foi naquele instante que percebemos que não se tratava de uma pessoa, mas sim da força brutal do vento.
A madrugada havia se transformado em um cenário de terror. As rajadas de vento atingiram velocidades inimagináveis e para quem estava dentro de casa ouvindo portas tremerem, os vidros das janelas explodirem, telhados voarem e as árvores caindo, parecia um verdadeiro furação. Pensei, isso é um furação. Na manhã que não demorou para chegar noticiava-se a queda de torres de comunicação , hospital das clínicas afetado, chegando ao ponto de interditar um andar inteiro, pessoas soterradas sob os destroços do seu próprio lar.
A cidade entrou em estado de emergência e a destruição mostrou de maneira brutal como a nossa sensação de normalidade é frágil. Pessoalmente, fiquei sem o fornecimento de água por 48 horas. Quando a vida desorganiza é que descobrimos o quanto dependemos das coisas que consideramos garantidas: água, luz, telefone, hospitais funcionando, ruas transitáveis e principalmente nosso lar funcionando.
De repente, por uma força maior da natureza estávamos vulneráveis e por isso mesmo lembrei da história da menina palestina Hind Hajab, de 6 anos, nascida em 3 de maio de 2018 e assassinada em 29 de janeiro de 2024, quando estava com a sua família no carro e alvo de constantes ataques de um tanque da tropa de ocupação. A menina Hind antes de ser morta, ainda conseguiu fazer uma chamada de emergência para o departamento humanitário.
Em Ribeirão Preto, tivemos medo de uma madrugada. Em Gaza, pessoas vivem sob a ameaça permanente da morte, da fome, da destruição , da perda de pessoas amadas. Essas pessoas não tem mais escolas, hospitais, vivem sobre os destroços onde cadáveres apodrecem sem direito a sepultamento.
Parece até que Sófocles quando escreveu a história da menina Antígona, lutando para dar um enterro digno ao seu irmão, imaginara que o futuro trouxesse- nos essa realidade. O pior de tudo isso é que não há mais os gritos das meninas Antígona e Hind Rajab, há somente o silêncio da humanidade .
Naquela madrugada da última sexta feira, os ventos que fizeram Ribeirão Preto tremer pareciam carregar um grito. Mas os ventos de Ribeirão passaram e a cidade começa a reconstruir suas casas, ruas e hospitais. Mas os mortos não voltarão, como no caso do idoso, de 75 anos, que faleceu durante o temporal que atingiu a nossa cidade, sob os destroços de sua própria moradia.
* Advogada

