André Luiz da Silva *
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Há conversas que começam sem qualquer intenção de virar reflexão. Foi assim, sentado à mesa de um restaurante, entre comentários sobre futebol, política e histórias da vida, quando surgiu uma pergunta simples: afinal, quando é comemorado o Dia do Garçom?
A dúvida era compreensível. O garçom participa dos bons momentos sem necessariamente aparecer. Percebe quando o copo está vazio, lembra preferências que às vezes esquecemos e, com discrição, acaba conhecendo histórias impublicáveis.
Meus amigos não sabiam que a data é comemorada em 11 de agosto, o mesmo dia dedicado aos advogados e ao tradicional “Dia do Pendura”, quando estudantes de Direito tentavam, no passado, convencer comerciantes a oferecer refeições gratuitas em nome da tradição acadêmica.
Mas o 11 de agosto tem uma história muito maior. Em 1827, Dom Pedro I criou os dois primeiros cursos jurídicos do Brasil: a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, e a Faculdade de Direito de Olinda, em Pernambuco. O país recém-independente precisava formar seus próprios juristas e intelectuais sem precisar da Universidade de Coimbra.Ali estudaram nomes fundamentais da nossa história, como Ruy Barbosa, Castro Alves e Joaquim Nabuco.
Em Ribeirão Preto a primeira surgiu em 1961, inicialmente denominada Faculdade de Direito “Laudo de Camargo”. Quando ingressei, era o único curso jurídico da cidade, extremamente concorrido e com professores que marcaram gerações. Entre eles, Wiliam Wanderley Jorge, que nos ensinava que a advocacia deveria ir além da aplicação das leis e buscar a realização da justiça.
Minha turma viveu a aprovação da Constituição de 1988 e a retomada das eleições diretas para presidente. Desde então, o mundo jurídico mudou radicalmente. Saímos das máquinas de escrever, dos diários oficiais de papel e das filas nos fóruns para processos digitais, audiências virtuais e os desafios da inteligência artificial.
A tecnologia trouxe avanços, mas também novas preocupações. O Código de Ética da OAB determina que a publicidade jurídica deve ser informativa, discreta e sóbria. Hoje, essa orientação convive com a era dos influenciadores jurídicos.
A advocacia também enfrenta desafios. O aumento do número de profissionais, a concorrência, a desvalorização dos honorários e a lentidão judicial transformaram a realidade da profissão. O antigo glamour, em alguns casos, deu lugar à luta pela sobrevivência.
Apesar de tudo, permanece a essência da advocacia: ajudar pessoas. Poucas coisas são tão gratificantes quanto acompanhar a transformação da angústia em alívio quando um direito é reconhecido.
A conversa no restaurante continuava animada. Em determinado momento, percebi que éramos praticamente os últimos clientes. Eles pediram a saideira, eu fiquei apenas no suco de acerola, mas valeu cada minuto.
Chegou então a hora mais democrática de qualquer encontro: dividir a conta. E, naturalmente, reservar os facultativos e merecidos 10% para aquele que acompanhou silenciosamente toda a conversa, serviu nossos pratos e, provavelmente, ouviu mais histórias jurídicas do que muitos livros conseguem contar.
Ao garçom, nosso respeito. Aos advogados, nossa reflexão. E aos amigos, a certeza de que algumas conversas valem muito mais do que o preço da conta.
* Servidor municipal, advogado, escritor e radialista

