Antonio Carlos A. Gama *
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Numa passagem, logo nas primeiras páginas, de “O Falecido Mattia Pascal”, de Pirandello, o próprio Mattia Pascal, conversando com o Padre Elígio, amaldiçoa Copérnico, e o sacerdote lhe pergunta: “Que tem Copérnico a ver com isso?”, e responde-lhe o seu interlocutor, estabelecendo-se o seguinte diálogo:
“Tem sim, Padre Elígio. Porque quando a Terra não girava…
“Ora esta! Mas se sempre girou!”
“Não é verdade. O homem não sabia disso e, portanto, era como se não girasse. Para muitos, ela continua a não girar também agora. Disse que girava, no outro dia, a um velho camponês; sabe o que ele me respondeu? Que era uma boa desculpa para os bêbedos. Aliás, o senhor também, tenha paciência, não pode pôr em dúvida que Josué fez o sol parar.”
O mundo das aparências e da suposta realidade. As sombras, na caverna de Platão. O mundo como vontade e representação, de Schopenhauer. Os fatos científicos provados, a certeza matemática, não mudam um centímetro no modo de viver da grande maioria dos homens.
O sol continua a girar em torno da Terra, ergue-se de manhã, paira um momento no zênite, e descamba no horizonte, para que chegue a noite com os seus sonhos.
A Terra não era redonda, nem girava em torno do sol, para os gregos. Antes, era sustentada por Atlas, ou por uma tartaruga. E se alguém caminhasse até os limites da Terra, cairia no abismo.
No entanto, os gregos do tempo de Péricles criaram uma civilização, em certo sentido bem melhor do que a de nossos ominosos tempos. No politeísmo pagão deles, havia numerosos deuses, presididos por Júpiter Tonante, e cada um encarnava uma paixão humana, tinha a sua reserva de mercado e repelia a globalização. Além disso, misturavam-se com os homens, intrometiam-se em suas guerras e amavam as suas mulheres. Sem esquecer que os próprios homens, tais fossem o seu mérito, a sua força, a sua coragem, podiam também tornar-se deuses, ou semideuses.
Antes da chegada das caravelas do almirante Pedro Álvares Cabral, o Brasil não existia para o resto do mundo. Nem por isso a Europa, a Ásia e as terras conhecidas se angustiaram com a pequenez do mundo, ou deixaram de prosperar, de se arruinar, e de travar guerras em que se matava bem menos do que hoje.
“A Terra é azul!” balbuciou Gagarin, na primeira nave espacial lançada fora da órbita terrestre. E completou que não vira Deus. É que Deus lhe dera uma banana, e se ocultara em seu mistério.
Os Estados Unidos da América do Norte, que há cinco séculos não passavam de um território de índios, colonizadores, búfalos, dominado pela Inglaterra, é hoje, ou supõe ser, a maior potência entre todas as nações, e pretendem ditar-lhes regras para proteger os seus próprios interesses.
Os sentidos podem enganar, mas nada do que concebemos deixa de passar antes por eles. Se a Terra é redonda como uma laranja, com dois polos achatados, não é assim que a vemos. Os eclipses já provocaram pânico e terror, e os primitivos faziam barulho, gritavam e batiam os seus rudes instrumentos, para afugentar a lua que cobria o sol. E as próprias galinhas, no quintal, quando escurece em virtude de um eclipse, tratam de recolher-se ao galinheiro. Menos apavoradas do que o homem, acham apenas que o dia terminou.
As cidades eram antes centros de convivência e de saudável divergência. Agora, como ratos em multidão faminta, convergimos todos para elas, e nos trucidamos com os nossos ódios miúdos e nossas ideologias.
* Promotor de Justiça, aposentado, advogado, professor de Direito e escritor

