José Eugenio Kaça *
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Tudo esbarra na educação. É uma frase eloquente que mostra a importância da educação para o desenvolvimento da pessoa humana e das ciências e tecnologias. Todavia, há uma discrepância abissal entre a educação destinada aos herdeiros do poder, e a educação destinada ao povo. É um desprezo histórico, que os herdeiros das Capitanias Hereditárias nutrem pela população pobre, e por conta disso criaram um desenho educacional que impõe barreiras quase intransponíveis para o povo.
São sabedores que é só através da educação que se desenvolve um país, mas nunca tiveram a preocupação para que o País alcançasse o desenvolvimento. Preferiram cuidar da educação de seus rebentos, para se darem bem na vida, e uma educação precária para os filhos dos pobres, e como isso o sistema permanece inalterado.
Os grandes educadores brasileiros; como Anisio Teixeira, Carneiro Leão, Lauro de Oliveira Lima, Paulo Freire, Darcy Ribeiro e outros, mostraram que é possível se ter uma educação básica pública de qualidade para todos, e com isso desenvolver o País nas relações humanas e nas ciências e tecnologias. Os poucos projetos exitosos que começaram a frutificar foram combatidos ferozmente, e mesmo assim resistiram. O Brasil não tem uma lei de castas como a Índia, entretanto, as práticas cotidianas de exclusão criam um País com desigualdades e barreiras sociais quase intransponíveis.
Fala-se muito na qualidade da educação pública no passado, porém era para poucos, e quando os donos do poder resolveram, por pressão externa colocar os filhos dos pobres na escola – a qualidade despencou. Os prédios dos ginásios e colégios públicos que serviam as “elites” tinham uma arquitetura clássica, mas quando foram obrigados (por acordos internacionais) a colocar os filhos dos pobres nas escolas, a coisa mudou. A arquitetura escolhida foi os modelos dos presídios, afinal, fica mais perto dos modelos habitacionais da população excluída. E aquela qualidade tão elogiada não entrou neste novo ambiente, apenas a violência física e psicológica continuou.
Tenho visto ultimamente em alguns podcasts, entrevistas de professores afirmando que a educação pública acabou, que não se consegue mais dar aulas, que se perde mais tempo com a indisciplinas dos alunos, do que aplicando os conteúdos curriculares; alguma coisa está fora da ordem. A velha história da vaca e do carrapato se repete. A escola só existe porque existe o aluno, e ele, o aluno é a personagem principal. O grande carnavalesco Joãozinho, respondendo a um reporte, sobre o luxo nos desfiles da sua Escola de Samba afirmou: “quem gosta de miséria é intelectual, o povo gosta de luxo, e de coisas bonitas”. A educação não pode continuar preparando os alunos somente para fazer provas, isso é improdutivo.
A educação formal tem que contribuir para melhorar as relações humanas, não pode continuar sendo uma educação bancária, como afirmou o grande Paulo Freire, ela precisa e deve influenciar o cotidiano. Vivemos um tempo de muitas informações e de poucos conhecimentos, e a escola, principalmente a escola pública tem a obrigação de mudar este ambiente. A educação básica tem que preparar para a vida coletiva, no entanto está preparando cada vez mais os indivíduos para o individualismo e o isolamento social. Fala-se muito no mundo do trabalho, em trabalho coletivo e nas boas relações humanas, todavia, a escola prepara para o individualismo e o isolamento. A educação cidadã começa na educação infantil e continua no ensino fundamental, se aprofundando no ensino médio, no entanto, o modelo individualista não permite que a solidariedade prospere- o modelo de prova, prova isto.
A solidariedade, o respeito, a responsabilidade, a afetividade e a honestidade são regras que devem compor o ambiente escolar, e com isso a palavra “colar”, não faz mais sentido, pois quando se tem um ambiente onde as regras de convivências são acolhidas e respeitadas, a cidadania floresce.
* Pedagogo, líder comunitário e ex-conselheiro da Educação

