Tribuna Ribeirão
Artigos

Eu sei de quase tudo um pouco

Foto: Arquivo

André Luiz da Silva *
[email protected]

O dia estava agitado, havia muitas mensagens para responder e, em um daqueles raros momentos de distração, peguei o celular para conferir as novidades do Instagram. Foi quando comecei a ser bombardeado por vídeos de especialistas nas mais variadas áreas. Especialistas em saúde, economia, política, comportamento, alimentação, investimentos e, aparentemente, em praticamente tudo que existe no planeta.

Um deles, porém, chamou minha atenção. Falava sobre um comportamento que eu desconhecia o conceito: a sofomania. Resolvi pesquisar.

Sofomania é a necessidade ou mania de parecer sábio, inteligente ou culto, mesmo sem possuir conhecimento real sobre aquilo que se tenta explicar. Depois de entender o significado, veio uma segunda descoberta: as redes sociais parecem ter criado um ambiente especialmente confortável para os sofomaníacos.

Eles falam com convicção sobre assuntos que não dominam, criam cursos e dão aulas sem terem estudado e, quando alguém apresenta uma opinião diferente, principalmente se for um especialista, tratam a discordância como ofensa pessoal. A falsa sabedoria frequentemente esconde insegurança, mas o caminho entre a insegurança e a arrogância parece ser bastante curto.

Há algo de familiar nisso. Em 1984, o Kid Abelha lançou “Nada Tanto Assim”, de Bruno Fortunato e Leoni, uma crítica à velocidade e à superficialidade da vida moderna. A pessoa quer conhecer tudo, acompanhar tudo, viajar para todos os lugares e estar por dentro de todas as novidades. Só há um pequeno problema: não consegue aprofundar-se em quase nada.

“Eu tenho pressa e tanta coisa me interessa, mas nada tanto assim.” Talvez seja uma das melhores sínteses da nossa época. E outra frase da música parece ainda mais atual: “Eu sei de quase tudo um pouco, e quase tudo mal”.

O problema começa quando quem sabe quase tudo mal resolve apresentar-se como especialista.

Acompanho podcasts e, às vezes, fico impressionado com o que acontece quando alguém ganha um microfone e duas horas de tempo. Quanto maior o espaço, maior parece ser a certeza. No setor administrativo da saúde, acompanho a seriedade necessária para validar tratamentos e terapias: pesquisas, estudos, testes, protocolos e certificações. Então surge alguém nas redes sociais, com um diploma de convicção e uma pós-graduação em certeza absoluta, desacreditando profissionais que passaram anos estudando.

Pior ainda quando essa falsa autoridade recomenda produtos ou tratamentos sem eficácia comprovada ou que podem colocar a saúde das pessoas em risco.

O fenômeno também aparece no mercado financeiro. Com discurso convincente, gráficos coloridos e promessas de ganhos extraordinários, alguns transformam investimentos complexos em receitas aparentemente simples. E sempre existe alguém disposto a entregar suas economias em troca da promessa de enriquecer rapidamente.

O poder dos sofomaníacos está justamente na combinação entre confiança exagerada, eloquência e falsa autoridade. Do outro lado, encontram pessoas que, por ingenuidade, desinformação ou desejo de levar vantagem, tornam-se presas fáceis.

Durante todo o ano estamos expostos a isso. Em períodos eleitorais, porém, o problema ganha outra dimensão. Teorias econômicas, religiosas e ideológicas se misturam à política, enquanto opiniões são apresentadas como fatos e convicções pessoais recebem o selo de verdade absoluta.

Talvez a velha cautela continue sendo uma excelente ferramenta. Antes de curtir, seguir ou compartilhar, vale conferir as fontes, ouvir especialistas e procurar opiniões diferentes. Ter acesso à informação não significa necessariamente ter conhecimento. E, ironicamente, a geração que mais informação possui pode ser também uma das mais facilmente manipuladas.

Por isso, antes de encerrar, faço um convite: pesquisem mais sobre sofomania. Inclusive, discordem de mim. Afinal, depois de escrever tudo isso, eu não gostaria de cometer o pecado supremo do texto: transformar uma breve reflexão em prova de que também sei tudo.

Ainda bem que não sei.

* Servidor municipal, advogado, escritor e radialista

Inscreva-se em nosso Canal no Whatsapp e fique por dentro de tudo que acontece na região.
Clique Aqui!

VEJA TAMBÉM

O desenho educacional é proposital

Redação

PcD tem direito de pagar menos pelo carro, seja qual for a deficiência

Redacao 5

A Oração da Madrugada – Quaresma de São Miguel

Redacao 5

Utilizamos cookies para melhorar a sua experiência no site. Ao continuar navegando, você concorda com a nossa Política de Privacidade. Aceitar Política de Privacidade