Antonio Carlos Augusto Gama *
[email protected]
Filho da nobreza da terra, Simão Bacamarte vai estudar em Coimbra e em Pádua. E aos trinta e quatro anos, regressa ao Brasil.
Suposto que houvesse levado seis anos para formar-se, e mais alguns em que permaneceu fora, terá ido para a Europa aí pelos vinte e quatro anos. E era natural que fosse estudar em Coimbra e em Pádua, posto que no Brasil, na sua época, não havia escolas de medicina, nem de ciências jurídicas.
“Filho da nobreza da terra”, explica o seu cronista, mas, já de volta ao seu país, não há notícias de seus pais, ou de seus parentes, a não ser de um tio, “caçador de pacas perante o Eterno”. Omite-os o narrador, ou porque já haviam falecido, ou porque antes, ao partir para Coimbra, Simão Bacamarte já não os tinha. E nem há mais nenhuma alusão à sua parentela, em Itaguaí ou em qualquer outro lugar.
É singular também que se chamasse Simão Bacamarte. Não há fidalguia em “Bacamarte”, arma de fogo de cano curto e largo. No entanto, era ele filho da nobreza da terra. Além disso, o autor costumava dar nomes comuns aos seus personagens, e não extravagantes. A menos que pretendesse, desde logo, pôr em ridículo o médico, que se tornaria alienista.
Ora, Simão é nome iniludivelmente hebraico ou judaico, adotado por pessoas que tinham o nome hebreu de Simeão. É também o nome do apóstolo Pedro e de Simão de Cirene, que ajudou Cristo a carregar a cruz.
Seria Simão Bacamarte judeu, ou cristão novo? Veja-se que, formado, el-rei de Portugal pretendeu que ele fosse reger a universidade, ou permanecesse “expedindo os negócios da monarquia”. Ele se esquivou: “A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo”.
Dito isto, meteu-se em Itaguaí, onde se entregou de corpo e alma ao estudo da ciência a buscar o princípio do perfeito equilíbrio mental.
No microcosmo de Itaguaí, vai-se erguer a Casa Verde, de cinquenta janelas, e prosperar. E, se antes, Simão Bacamarte se entregou “de corpo e alma ao estudo da ciência, alternando as curas com as leituras, e demonstrando os teoremas com cataplasmas”, mais tarde lhe chamará especialmente a atenção “o recanto psíquico, o exame da patologia cerebral”. Como ele também dirá ao boticário Soares, quando já se aprofundava em suas investigações, “a loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente”.
Agita-se Itaguaí, agita-se o seu povo, agitam-se os seus vereadores. É que Simão Bacamarte parece-lhes excessivo. Mas ele, com a só eloquência dos sábios, com a retórica adquirida em Coimbra, convence a todos da necessidade da construção do vasto hospital, que se pagaria engenhosamente com impostos, como o imposto dos penachos: “Quem quisesse emplumar os cavalos de um coche funerário, pagaria dois tostões à câmara, repetindo-se tantas vezes esta quantia quantas fossem as horas decorridas entre a do falecimento e a da última bênção na sepultura”.
Afinal a tese de “O Alienista” é: todos são loucos e eu, Simão Bacamarte, sou o único que não é louco; logo, ninguém é louco, e só eu sou louco por ter perfeito equilíbrio mental.
Não há fugir.
Com efeito, Simão Bacamarte chega a internar, na Casa Verde, quase toda a população de Itaguaí. Daí a revolta contra o seu despotismo científico, revolta que ele consegue dominar. Mas, afinal, por honestidade, e rigoroso espírito científico, acaba por internar-se, sozinho, em seu hospício.
Machado de Assis também está só. Contemplou toda a humanidade e sua fraude, sua miséria, desde a sepultura ao berço. Vai isolar-se em Cosme Velho, já que não tem mais nem a companhia de Carolina.
* Promotor de Justiça, aposentado, advogado, professor de Direito e escritor

