André Luiz da Silva *
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No baú da minha memória de infância encontra-se o vívido registro de uma comemoração do Dia da Independência do Brasil. Na ocasião, apresentamos um jogral com a famosa letra da música: “Sete de Setembro, data tão festiva, foi a Independência desta terra tão querida. É uma grande data para o meu Brasil, que hoje está liberto e cheio de encantos mil. Viva! Viva! Viva a independência do Brasil, do Brasil!”
Atento aos ensinamentos dos professores, muitas vezes contemplei a pintura “Independência ou Morte” de Pedro Américo de Figueiredo e Melo. Foi com certo desapontamento que descobri que, naquele tempo, não havia fotógrafos, influenciadores digitais, câmeras ou celulares para registrar a cena. Ainda assim, a obra, concluída em 1888, parece ter recorrido aos efeitos do Canva, do Gemini ou outra inteligência artificial: Dom Pedro I, originalmente montado em um burro e acompanhado por uma comitiva vestida como simples tropeiros, aparece transformado em herói de gala, cercado por nobres, fardas, capacetes de dragões, botas, cavalos garbosos e espadas reluzentes.
Somente na fase adulta conheci um episódio talvez mais relevante — e, por muito tempo, pouco lembrado — da nossa história: a Independência da Bahia, também chamada de Independência do Brasil na Bahia.
O movimento teve início em 19 de fevereiro de 1822 e contou com a participação de indígenas, negros libertos e escravizados, mulheres, profissionais liberais, senhores de engenho, camponeses, professores e tantos heróis e heroínas anônimos que, aos poucos, a história vai revelando. Entre os nomes que ganharam destaque estão Maria Quitéria, Maria Felipa de Oliveira, Joana Angélica, o general Pedro Labatut, o Corneteiro Luís Lopes e o cacique Bartolomeu Jacaré.
Uma luta que envolveu diferentes segmentos da sociedade e que culminou, em 2 de julho de 1823, com a expulsão das tropas portuguesas da Bahia.
Vale lembrar que Portugal somente reconheceu oficialmente a independência do Brasil em 29 de agosto de 1825, por meio do Tratado do Rio de Janeiro, também chamado de Tratado de Paz, Amizade e Aliança. O acordo contou com a mediação da Inglaterra, interessada em proteger seu comércio com o Brasil e manter boas relações com Portugal. Para viabilizar o acordo, os ingleses emprestaram ao Brasil 2 milhões de libras esterlinas, utilizados como compensação a Portugal pelas propriedades perdidas. Nascia, assim, nossa primeira dívida externa. Além disso, foi concedido ao rei português D. João VI o título vitalício de Imperador Honorário do Brasil.
Desde então, o Brasil superou inúmeras instabilidades econômicas e políticas, além de golpes de Estado e de presidentes que se suicidaram, renunciaram ou foram destituídos do poder. Desde 1989, convivemos também com fortes polarizações nas eleições.
É importante compreender que as disputas fazem parte da construção democrática. O problema, portanto, não está na divergência, mas na transformação da polarização em intolerância. Deixamos de tratar o adversário como concorrente e passamos a enxergá-lo como um inimigo que precisa ser eliminado.
Nesta Semana da Pátria, é mais do que necessário refletir sobre a noção de patriotismo, tão deturpada nos últimos tempos. Patriotismo não é apenas cantar o hino com a mão sobre o coração — gesto inspirado em costumes de outros povos e que, aliás, não corresponde à postura oficial prevista pela legislação brasileira. Patriotismo deve ser expressão de amor, devoção e afeto pela terra natal e por seus símbolos, mas também compromisso com a construção de um país soberano, capaz de criticar democraticamente seus erros e buscar soluções para seus problemas sociais.
Mais do que civismo, precisamos cultivar cidadania. Nosso país somente será verdadeiramente independente quando garantir soberania política, autonomia econômica e dignidade, com direitos básicos assegurados à sua população. E quando puder ocupar seu lugar no cenário mundial como uma nação que não sucumbe ao imperialismo, defende a paz e respeita a autodeterminação dos povos.
A missão não é fácil, mas é possível e necessária. Cabe a cada brasileiro assumir sua responsabilidade.
Aquele garoto que um dia ficou encantado por uma independência idealizada é hoje quase sexagenário. E ainda mantém o desejo de, um dia, sentir orgulho ao ouvir sua neta cantar:
“Viva! Viva! Viva a verdadeira independência do Brasil, do Brasil!”
* Servidor municipal, advogado, escritor e radialista

