Branca, dourada, armazenada ou envelhecida em diferentes madeiras, a cachaça atravessou aproximadamente cinco séculos de história até se transformar em um dos símbolos culturais e gastronômicos do Brasil. Neste domingo, 13 de setembro, a bebida ganha destaque em celebrações realizadas em diferentes regiões do país, entre elas o 1º Festival da Cachaça de Ribeirão Preto.
O Dia Nacional da Cachaça foi criado pelo Instituto Brasileiro da Cachaça (Ibrac), em 2009. A escolha do dia 13 de setembro remete a uma ordem da Coroa Portuguesa que, em 1661, voltou a permitir a produção e a comercialização da bebida no Brasil.
A decisão foi tomada depois da chamada Revolta da Cachaça, movimento liderado por produtores do Rio de Janeiro contra as proibições e a cobrança de impostos. A cachaça já havia conquistado espaço na colônia e concorria com destilados portugueses, como a bagaceira, produzida a partir do bagaço da uva.
Embora não exista consenso sobre o local exato onde ocorreu a primeira destilação, o Ibrac estima que a bebida tenha surgido em algum engenho de açúcar do litoral brasileiro entre 1516 e 1532, durante o início da colonização portuguesa.
Produto exclusivo do Brasil
Nem toda aguardente de cana pode ser chamada de cachaça. Pela legislação brasileira, a denominação é típica e exclusiva da bebida produzida no Brasil por meio da destilação do mosto fermentado do caldo da cana-de-açúcar.

A cachaça deve apresentar graduação alcoólica entre 38% e 48%, medida a 20 graus Celsius. Já a aguardente de cana pode chegar a 54% de álcool e também pode ser obtida a partir do destilado alcoólico simples de cana.
A matéria-prima também diferencia a cachaça de outras bebidas, como por exemplo, do rum. Enquanto a bebida brasileira é produzida diretamente do caldo fermentado da cana-de-açúcar, o rum é feito, em geral, a partir de derivados da produção de açúcar, como o melaço.
Além de ser consumida pura, a cachaça é utilizada na preparação de coquetéis. O mais conhecido é a caipirinha, combinação de cachaça, limão, açúcar e gelo que se tornou uma das referências da coquetelaria brasileira no exterior.
Produção cresce pelo país
O Brasil encerrou 2025 com 1.538 estabelecimentos produtores de cachaça registrados no Ministério da Agricultura e Pecuária. Foram 272 a mais que no ano anterior, crescimento de 21,5%.
Os produtores estão distribuídos por 844 municípios. Minas Gerais lidera o levantamento, com 564 estabelecimentos, seguido por São Paulo, com 230, e Rio Grande do Sul, com 106.
Os dados fazem parte do Anuário da Cachaça 2026, elaborado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária. O documento contabiliza 8.379 produtos registrados e uma produção declarada de aproximadamente 234,4 milhões de litros em 2025.
O setor formal informou ainda 6.232 empregos diretos. Os dados não incluem produtores que trabalham sem registro, uma das dificuldades ainda enfrentadas pela cadeia produtiva.
No mercado internacional, o Brasil exportou aproximadamente 7,9 milhões de litros de cachaça para 76 países no ano passado. Apesar da presença em dezenas de mercados, as vendas externas representam uma parcela pequena diante do volume produzido e consumido internamente.
Madeiras criam cores e sabores
Uma das particularidades da cachaça é a diversidade de madeiras utilizadas para armazenamento e envelhecimento. Mais de 30 espécies podem conferir diferentes cores, aromas e sabores à bebida.
Além do tradicional carvalho, os produtores brasileiros utilizam madeiras como amburana, bálsamo, amendoim, jequitibá, castanheira e freijó. A amburana costuma transmitir aromas frutados e notas de especiarias. O bálsamo pode produzir tons amarelo-esverdeados e sabores herbais, enquanto o jequitibá interfere pouco na coloração e preserva características da cana.

As versões brancas também podem permanecer em recipientes de aço inoxidável ou passar por madeiras que alteram pouco sua aparência. Já as bebidas envelhecidas adquirem coloração e características sensoriais conforme o tipo de madeira, o tamanho do recipiente e o período de permanência.
A diversidade ajuda a afastar a imagem da cachaça como uma bebida única e padronizada. Assim como ocorre com vinhos e outros destilados, matéria-prima, fermentação, destilação, região produtora e envelhecimento interferem no resultado final.
Apesar da importância histórica, cultural e econômica, a cachaça é uma bebida alcoólica. A venda é proibida para menores de 18 anos e o consumo, quando houver, deve ocorrer com responsabilidade.

