Tribuna Ribeirão
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O preço da ambição

Rodrigo Gasparini Franco *
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A história da Roma Antiga permanece como um dos mais contundentes espelhos sobre os perigos da degradação ética na vida pública, oferecendo lições intemporais sobre como a ganância desmedida corrói os alicerces institucionais. O colapso da República Romana não decorreu de um golpe repentino de forças externas, mas sim de um apodrecimento interno impulsionado pela simbiose nefasta entre a riqueza privada e o poder político. Quando os interesses coletivos foram sistematicamente subordinados aos cofres de uma oligarquia predatória, a República transformou-se em um balcão de negócios, no qual mandatos, alianças militares e decisões judiciais tinham preços fixados pelo melhor pagador.

Nesse cenário de degradação cívica, ninguém personificou tão claramente o poder desestabilizador do dinheiro quanto Marco Licínio Crasso, o homem mais rico de seu tempo. Crasso não construiu sua imensa fortuna por meio de virtudes produtivas, mas tirando proveito de tragédias sociais e da conivência estatal. Sua ascensão financeira ganhou contornos vorazes durante as proscrições do ditador Sula, comprando a preços irrisórios os bens de cidadãos condenados à morte, além de organizar uma famosa brigada de bombeiros particular que apenas combatia os constantes incêndios de Roma caso os desesperados proprietários aceitassem vender seus imóveis em chamas por frações de seu valor real.

Ciente de que o ouro por si só não bastava para garantir a hegemonia em uma sociedade militarizada, Crasso utilizou sua fortuna como instrumento de cooptação e barganha. Foi dessa forma que ele cruzou seu destino com o de Júlio César, um jovem aristocrata carismático, brilhante e atolado em dívidas colossais. Ao financiar a extravagante escalada política de César e garantir suas linhas de crédito perante credores enfurecidos, Crasso comprou influência direta no destino de Roma, consolidando ao lado de César e do prestigiado general Pompeu o célebre Primeiro Triunvirato. Essa aliança informal funcionou na prática como um cartel político, no qual o dinheiro de Crasso, as legiões de Pompeu e a ousadia legislativa de César anularam o Senado, distribuindo províncias, comandos e privilégios conforme as conveniências do trio.

Contudo, a corrupção do caráter cobra seu preço através da húbris. Incomodado pelo prestígio marcial de Pompeu e pelas retumbantes vitórias de César na Gália, Crasso quis provar que seu ouro também comprava glória militar perpétua. Nomeado governador da Síria, ele planejou uma campanha desnecessária e ilegal contra o Império Parta, movido unicamente pelo anseio de pilhar os fabulosos tesouros do Oriente e conquistar triunfos militares comparáveis aos de seus sócios. Ignorando solenemente os alertas climáticos, os relatórios de reconhecimento e os conselhos de seus próprios oficiais, Crasso marchou com sete legiões para o coração do deserto mesopotâmico.

O resultado dessa arrogância cega ocorreu na trágica Batalha de Carras, em 53 a.C., na qual as legiões romanas, pesadas e exaustas, foram cercadas e dizimadas pela cavalaria arqueira dos partas. Atraído para falsas negociações de trégua, Crasso foi assassinado de forma humilhante. Reza a crônica histórica transmitida pela tradição antiga que os partas, ironizando a insaciável voracidade material daquele que fora o homem mais rico do Ocidente, verteram ouro derretido pela garganta de seu cadáver degolado, sentenciando que aquele que viveu de ganância finalmente morresse farto do metal.

A desastrosa empreitada de Crasso não apenas desestabilizou o equilíbrio do triunvirato, abrindo caminho para a guerra civil que sepultaria a República, mas também batizou a expressão que atravessou milênios. A conjunção entre negligência tática, ignorância estratégica deliberada e ganância desmedida transformou a sua ruína na gênese do “erro crasso”: a falha grosseira, indesculpável e fruto de pura imprudência que decorre da soberba daqueles que acreditam que o poder e o dinheiro estão acima de todas as regras.

* Advogado e consultor empresarial de Ribeirão Preto, mestre em Direito Internacional e Europeu pela Erasmus Universiteit (Holanda) e especialista em Direito Asiático pela Universidade Jiao Tong (Xangai)

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