Prof.ª Dr.ª Maria Helena da Nóbrega *
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Pergunte à IA qual a acentuação gráfica vigente após o acordo ortográfico. A resposta vem cheia de “fim disso”, “fim daquilo”, o que mostra o aspecto simplificador da nova proposta. Mesmo assim, toda mudança causa desconforto e reclamações. Quando as regras entraram em vigor, José Simão, colunista da Folha de São Paulo, disse que estava confuso e queria “botar os pingos nos us”. Hoje, mais de 15 anos após a oficialização do acordo no Brasil, já estamos acostumados às novas regras grafadas em jornais, revistas, livros, material impresso em geral.
Com a incorporação de K, W e Y, a língua portuguesa passou a ter 26 letras, que podem ser usadas em siglas, símbolos e nomes próprios estrangeiros:km, Kafka, Darwin, Joyce.
O TREMA (atenção: trema é substantivo masculino) permanece apenas em palavras estrangeiras. Portanto: frequente, consequência, tranquilo, cinquenta, eloquente, sequestro, aguentar, liquidação, ambiguidade, Bündchen. A alteração é apenas na grafia, ou seja, não muda a pronúncia: linguiça.
Palavras terminadas com EEM e OO ficam sem acento: creem, leem, veem, enjoo, perdoo, voo.
I e U tônico nas paroxítonas, quando vierem depois de um ditongo, ficam sem acento: feiura. Não confundir com I e U no final da palavra, que continua sendo acentuado: Piauí. Atenção: substituí-lo, atraí-lo, restituí-lo.
Ditongos abertos ÉI e ÓI nas paroxítonas são grafados sem acento: ideia, plateia, estreia, geleia, paranoia, joia, tramoia, heroico, (ele) apoia, (eu) apoio.
O ACENTO DIFERENCIAL não é mais usado e o exemplo usual é para, verbo ou preposição. Nesse caso houve muitas críticas, porque há frases em que o contexto não esclarece o significado, como no exemplo antológico do Prof. Platão Savioli à época da divulgação do acordo: “Novo remédio para coração de cardíaco”. Como preposição, o remédio salva; como verbo, mata. Embora o problema permaneça, os contextos em que tal ambiguidade ocorre são bem restritos, felizmente. Permanecem com acento diferencial pôde (passado) – pode (presente), pôr (verbo) – por (preposição).
Acentuação correta é particularmente importante para quemproduz textos escritos formais, nos quais a correção serve como apoiador do conteúdo. Se o relatório de, digamos, engenharia estiver com erros gramaticais, toda a estrutura linguística e o conteúdo se fragilizam. No geral se espera que profissionais graduados tenham domínio da norma culta da língua, além do conhecimento técnico na sua área de atuação.
Para quem presta concursos e exames oficiais, o domínio da língua portuguesa em suas minúcias pode ser decisivo, pois as questões buscam detalhes que o estudo superficial não alcança. No caso da acentuação, o candidato deve saber que ÉI e ÓI ficam sem acento nas paroxítonas, mas nas oxítonas o acento permanece: papéis, fiéis, herói, lençóis, corrói, remói.
Há ainda “pegadinhas” que marcam a distinção sintática e semântica pela acentuação, como em: a influência/ele influencia; a renúncia/ele renuncia; o contrário/eu contrario; a dúvida/ele duvida; problema específico/eu especifico.
Alguns dizem que o contexto esclarece o sentido. Será? Sempre? Ela girou a saia enquanto saía do palco.
O computador corrige. Será? Sempre? E quem programa o computador?Aprender é sempre um ganho, né? Usar o cérebro, sabe? O cérebro fabrica sinapses quando a fábrica cerebral está munida de estímulos. Além disso, quem pratica cria uma prática sólida, inabalável.
Claro que cada pessoa vai conhecer a acentuação gráfica na medida das suas necessidades. Também é seguro afirmar que ninguém vai saber tudo. O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa apresenta em torno de 380 mil palavras. Dessas, cada um vai usar uma pequena fração, dependendo do contexto oral e escrito que frequenta. Esse vocabulário ativo pode ser ampliado por meio de leitura, dependendo dos interesses individuais. Por outro lado, se a pessoa não usa a palavra “baiuca”, de que adianta decorar que ela perdeu o acento no U?
A acentuação ficou assim, facilitada. Já o hífen – ai aiai. Num primeiro momento parece um bicho-papão. Ou bicho papão? No próximo texto aprenderemos técnicas mnemônicas para domesticá-lo.
* Professora aposentada da Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

