José Aparecido Da Silva*
Neste domingo ensolarado, enquanto tomo meu café e vejo a luz atravessar a janela, dou-me ao luxo de pensar sobre a passagem dos anos. Aos meus setenta e quatro anos — dedicados quase por inteiro a tentar medir as coisas invisíveis da alma humana, como a inteligência, o raciocínio e até a própria dor —, a pergunta que mais me fazem em conversas de calçada ou nos corredores acadêmicos é simples, mas profunda: afinal, professor, o que é que envelhece em nós quando o tempo passa?
Machado de Assis, em suas páginas imortais, olhava para o relógio da vida com uma ironia sutil e quase resignada. No entanto, a neurociência moderna, aliada a cinco décadas de observação do comportamento humano, me permite oferecer uma resposta muito mais esperançosa. O tempo cobra o seu tributo, é verdade, mas ele não consome o edifício da mente por inteiro; apenas altera a velocidade com que percorremos os seus corredores. Quando envelhecemos, o que muda em primeiro lugar é a mecânica do cérebro — aquilo que poderíamos chamar de suporte físico da mente. Sabe aquela pequena hesitação para recordar o nome de um filme antigo, a chave momentaneamente esquecida sobre o aparador ou a sensação de que precisamos de alguns segundos a mais para processar uma informação nova? Isso nada mais é do que o motor biológico operando em um ritmo mais pausado. As estradas neurais continuam lá, mas o tráfego de dados passa a fluir com a calma de quem já não tem pressa injustificada. É como se a orquestra da vida continuasse a tocar a mesma música, apenas em um tempo mais sereno.
Por outro lado, aquilo que construímos ao longo de toda a existência — a nossa bagagem de conhecimentos, o vocabulário, o julgamento moral, a capacidade de compreender o mundo e a sabedoria para resolver dilemas emocionais — não apenas resiste à passagem dos anos, como costuma se enriquecer. O motor pode estar mais lento, mas o piloto jamais foi tão experiente. Existe ainda uma descoberta maravilhosa que a neurociência nos presenteou: o cérebro humano não é uma estrutura rígida de pedra, mas uma tapeçaria viva que se reconfigura até o último dos nossos dias. Cada capítulo lido nesta manhã de domingo, cada conversa afetuosa ao redor da mesa, cada caminhada ao ar livre e cada novo hábito praticado funcionam como um escudo protetor, criando o que chamamos de reserva mental. O cérebro mais amadurecido é um mestre em criar caminhos alternativos; quando um atalho antigo se desgasta, ele constrói um desvio elegante para alcançar o mesmo objetivo.
Portanto, ao leitor que hoje folheia este jornal, deixo um convite sincero: não veja o envelhecer como o apagar de uma vela, mas como uma mudança de iluminação na casa. Cultive a curiosidade, mantenha os laços de amizade bem acesos, leia com paixão e movimente o corpo. A agilidade pode diminuir, mas a beleza do pensamento e a profundidade de viver só fazem aumentar. Um excelente e luminoso domingo a todos.
Professor Titular Sênior USP-RP*




