Tribuna Ribeirão
DestaqueGeral

Trânsito segue matando em Ribeirão Preto

Motociclistas lideram o ranking de mortos no trânsito com 42,8% dos casos | Foto: Alfredo Risk

Por: Adalberto Luque

Dois motociclistas morreram em acidentes ocorridos na Via Norte, em Ribeirão Preto, em um intervalo de poucas horas, na noite de 26 de abril. Em pontos diferentes da avenida Eduardo e Andrea Matarazzo, as motos atingiram postes e os condutores morreram no local. As vítimas eram Leandro de Fabbris, de 48 anos, e Eder Guedes Tussi, de 40.

Os dois casos ajudam a dimensionar uma realidade que aparece nos números do Sistema de Informações Gerenciais de Acidentes de Trânsito do Estado de São Paulo, o Infosiga-SP. Entre janeiro e julho deste ano, 56 pessoas morreram em acidentes de trânsito em Ribeirão Preto. Mais da metade das vítimas, 32, eram motociclistas ou garupas.

O levantamento reúne ocorrências registradas nas ruas, avenidas e rodovias do município e permite analisar mortes, acidentes em geral, veículos envolvidos, perfil das vítimas, tipos de ocorrências e períodos em que os casos aconteceram.

O número acumulado nos sete primeiros meses de 2026 é 3,7% maior que o registrado no mesmo período de 2025. Foram 54 mortes de janeiro a julho do ano passado, duas a menos que neste ano.

A comparação, porém, muda conforme o período analisado. O primeiro semestre de 2026 terminou com 46 mortes, contra 51 no mesmo intervalo de 2025, redução de 9,8%. Em julho, entretanto, foram dez mortes, contra três no mesmo mês do ano passado, aumento de 233,3%.

Motos lideram

Dos 56 mortos entre janeiro e julho, 32 eram motociclistas ou garupas. Os pedestres aparecem em segundo lugar, com 14 vítimas. Outras cinco pessoas eram motoristas ou passageiros de veículos e quatro eram ciclistas.

O peso das motocicletas também aparece nos números consolidados de 2025. Durante todo o ano passado, 47 motociclistas morreram em acidentes de trânsito em Ribeirão Preto. Na sequência ficaram os ciclistas, com 13 mortes, os pedestres, com 12, e os ocupantes de veículos, com nove.

Em 2026, 14 pedestres perderam suas vidas no trânsito da cidade | Foto: Alfredo Risk

Em 2026, entre os motociclistas mortos, 16 estavam envolvidos em colisões e 11 em choques. No ano passado, as colisões provocaram 27 mortes de motociclistas e os choques, 13.

Um dos acidentes registrados na cidade neste ano envolveu justamente uma motocicleta e um carro, no dia 3 de agosto. O motociclista fazia entregas quando ocorreu a colisão no cruzamento das avenidas Independência e Anhanguera, na zona Sul. Ele foi arremessado ao solo e morreu em consequência dos ferimentos.

As circunstâncias da colisão foram encaminhadas para investigação.

Dos acidentes fatais registrados pelo Infosiga-SP em 2026, 75% ocorreram em vias públicas municipais, como ruas, avenidas e praças. Os outros 25% aconteceram em rodovias.

A predominância das vias urbanas também aparece nos dados de 2025. Naquele ano, 64,4% dos acidentes fatais ocorreram em ruas e avenidas. Outros 23% foram registrados em rodovias e 12,6% ficaram sem registro exato do local onde o óbito ocorreu.

Perfil das vítimas

Os homens representam a maioria das vítimas fatais. Em 2026, eles correspondiam a 80% dos mortos, enquanto as mulheres representavam 20%.

Entre os homens, as faixas etárias de 20 a 24 anos e de 45 a 49 anos tiveram o maior número de registros, com seis mortes cada.

Entre as mulheres, as faixas de 50 a 54 anos e de 75 a 79 anos registraram dois casos cada.

Em 2025, 71% das vítimas fatais eram homens e 29%, mulheres. A faixa de 45 a 49 anos concentrou o maior número de mortes, com 11 casos, seguida pelo grupo de 20 a 24 anos, com oito.

Outro dado do Infosiga-SP mostra que a maioria das vítimas fatais estava na condução de algum veículo.

Entre janeiro e julho deste ano, 36 das 56 vítimas, ou 64,3%, eram condutores. Os pedestres representaram 14 mortes, equivalentes a 25%, enquanto quatro vítimas, ou 7,1%, eram passageiros.

Em 2025, os condutores formaram 66,7% das vítimas fatais. Os pedestres responderam por 13,8% e os passageiros ou garupas, por 10,3%.

Na rodovia

Um exemplo de morte de pedestre ocorreu com o ex-prefeito de Guatapará Ailton Aparecido da Silva, conhecido como Irmão Ailton, de 57 anos.

Ele morreu atropelado, na noite de 13 de agosto, na Rodovia Antônio Machado Sant’Anna (SP-255), depois de se envolver em outro acidente. Segundo as informações divulgadas na época, Ailton havia capotado a Saveiro que conduzia e, depois de sair do veículo, entrou na pista.

O ex-prefeito foi atingido por um Toyota Corolla. A motorista relatou que não conseguiu evitar o atropelamento. Ailton morreu antes de receber atendimento médico.

O caso ocorreu em rodovia, que respondeu por um quarto das mortes registradas pelo Infosiga-SP em Ribeirão Preto neste ano. A maior parte, no entanto, aconteceu dentro do perímetro urbano.

Quando o recorte deixa de considerar apenas as mortes e passa a incluir todos os acidentes, o volume aumenta de forma significativa.

Quase mil

Entre janeiro e julho de 2026, o Infosiga-SP registrou 991 acidentes de trânsito em Ribeirão Preto. O número inclui ocorrências com vítimas fatais, vítimas não fatais e pessoas que saíram ilesas.

O resultado representa uma média próxima de cinco acidentes por dia.

Mãe e filha morreram em acidente na Rodovia Anhanguera e outra filha foi retirada das ferragens em estado grave | Foto: Repórter Felipe Silva/Portal SP Online

A quantidade está abaixo do que foi registrado em anos anteriores. O maior número da série histórica citada no levantamento ocorreu em 2023, quando Ribeirão Preto contabilizou 3.729 acidentes durante o ano, média de aproximadamente dez ocorrências por dia.

Nos seis primeiros meses deste ano, o número de acidentes ficou abaixo do registrado nos mesmos meses de 2025. Julho foi a exceção, com mais ocorrências que no mesmo mês do ano passado.

Entre os veículos envolvidos nos acidentes de 2026, automóveis aparecem com 702 registros, correspondentes a 44,9% do total. As motocicletas tiveram participação próxima, com 691 casos, ou 44,2%.

As colisões foram responsáveis por 74,7% dos acidentes.

Do total de ocorrências, 55, ou 5,5%, tiveram vítimas fatais. Os outros 936 acidentes, equivalentes a 94,5%, envolveram vítimas não fatais ou pessoas que saíram ilesas.

Dos registros de 2026, 42,8% tiveram envolvidos que saíram ilesos. As vítimas classificadas como leves representaram 47,8%. Outros 5% foram classificados como vítimas graves e 2,7% como vítimas fatais.

No conjunto dos acidentes, 66,9% dos envolvidos eram homens e 33,1%, mulheres.

Tragédia na Anhanguera

Um acidente ocorrido na Rodovia Anhanguera mostra como uma única ocorrência pode reunir diferentes níveis de gravidade.

Na noite de 2 de agosto, na altura do km 317, um carro ocupado por uma mulher e suas duas filhas foi atingido por um guincho. O automóvel foi arrastado por cerca de 50 metros.

A motorista, Rosângela de Souza Lima, de 30 anos, morreu no local. A filha dela, Sophia de Souza Lima Furquin, de 8 anos, também morreu depois de ser retirada das ferragens.

A outra filha, de 4 anos, foi socorrida em estado gravíssimo. O motorista do guincho sofreu ferimentos leves. A ocorrência, registrada em rodovia, reuniu vítimas fatais, uma vítima em estado grave e uma pessoa com ferimentos leves.

Julho em alta

O mês de julho foi responsável por uma mudança importante nos números de 2026. Na comparação com junho, as mortes passaram de sete para dez, crescimento de 42,9%.

Quando julho deste ano é comparado com julho de 2025, a diferença é ainda maior: foram três mortes no ano passado e dez neste ano.

No primeiro semestre, entretanto, houve redução de 51 para 46 mortes, queda de 9,8%. No acumulado de janeiro a julho, o resultado passou de 54 para 56 mortes.

Outros recortes mostram crescimento nos períodos mais recentes. Entre maio e julho deste ano, foram 27 mortes, contra 22 nos mesmos meses de 2025, alta de 22,7%.

Na comparação dos últimos seis meses, de fevereiro a julho, foram 50 mortes, contra 47 no mesmo período do ano anterior, crescimento de 6,4%.

Já no recorte dos últimos 12 meses, a situação é inversa. Entre agosto de 2025 e julho de 2026, foram registradas 89 mortes, contra 100 nos 12 meses anteriores, redução de 11%.

Na comparação com os períodos imediatamente anteriores, o trimestre de abril a junho de 2026 teve 28 mortes, contra 18 entre janeiro e março, crescimento de 55,6%.

Nos últimos três meses, de maio a julho, foram 27 mortes, contra 23 de fevereiro a abril, alta de 17,4%. Nos últimos seis meses, de fevereiro a julho, foram 50 vítimas fatais, contra 39 entre agosto de 2025 e janeiro de 2026, aumento de 28,2%.

O primeiro semestre deste ano também ficou acima do segundo semestre de 2025: 46 mortes contra 36, alta de 27,8%.

Dias e horários

Quintas e sextas-feiras foram os dias com mais registros de mortes entre janeiro e julho, com dez vítimas cada. A quarta-feira teve o menor número.

No cruzamento entre dia da semana e período do dia, a manhã de quinta-feira e a noite de sábado tiveram cinco mortes cada. Nas madrugadas, a sexta-feira apresentou o maior número, com quatro vítimas. Os registros mostram ainda a predominância das colisões e choques entre as ocorrências fatais.

Entre motociclistas, foram 16 mortes em colisões e 11 em choques. Entre ocupantes de veículos, três mortes ocorreram em choques e uma em colisão.

Série histórica

O Infosiga-SP disponibiliza dados de Ribeirão Preto desde 2015. O maior número de mortes da série ocorreu em 2024, quando 108 pessoas morreram em acidentes de trânsito. O segundo maior resultado foi registrado em 2022, com 101 vítimas.

Em 2025, foram 87 mortes, 21 a menos que no ano anterior. A redução foi de 19,4%. A queda também aparece no período de 12 meses encerrado em julho deste ano. Entre agosto de 2025 e julho de 2026, foram 89 mortes, contra 100 nos 12 meses anteriores.

Em 2026, a cada quatro dias, uma pessoa morreu no trânsito de Ribeirão Preto | Foto: Alfredo Risk

A série, porém, não apresenta redução em todos os recortes. O resultado de julho elevou o acumulado de janeiro a julho para 56 vítimas, duas acima do registrado no mesmo período de 2025.

No volume geral de acidentes, a diferença em relação a 2023 é maior. Naquele ano, foram 3.729 ocorrências. Nos sete primeiros meses de 2026, foram 991. Mesmo com a redução no número total de acidentes, 55 ocorrências neste ano já haviam resultado em vítimas fatais.

Até julho, os registros mostram que Ribeirão Preto teve menos acidentes do que em anos anteriores, mas ainda contabilizou 56 mortes no trânsito em apenas sete meses, com os motociclistas respondendo pela maioria das vítimas. No total, uma morte a cada 91 horas.

Ações permanentes

Para o engenheiro civil Anderson Manzoli, mestre pelo Departamento de Transportes da USP de São Carlos e especialista em trânsito, Ribeirão Preto avançou na redução das mortes, mas ainda não pode considerar concluída a tarefa de melhorar a segurança viária. Ele observa que, nos últimos 12 meses, houve redução de aproximadamente 11% nas mortes em relação ao período anterior. Em 2024, foram 108 mortes, número que caiu para 87 em 2025. Até julho de 2026, porém, já haviam sido registradas 56 mortes, contra 54 no mesmo período do ano passado, com julho concentrando dez mortes, ante três em 2025.

Para Manzoli, a redução dos indicadores é positiva, mas não deve ser confundida com uma situação satisfatória de segurança no trânsito. “A Segunda Década de Ação pela Segurança no Trânsito, promovida pela ONU, trabalha justamente com a ideia de reduzir drasticamente mortes e lesões graves, e isso exige uma política permanente, não apenas ações pontuais”, afirma.

A média de uma morte a cada aproximadamente 91 horas, registrada neste ano até julho, também deve ser analisada para além dos números. O especialista aponta que parte das ocorrências está relacionada a fatores que podem ser prevenidos, como velocidade inadequada, consumo de bebidas alcoólicas, ultrapassagens perigosas, uso inadequado da motocicleta, distração, desrespeito à sinalização e outros comportamentos de risco. Na avaliação dele, a redução das mortes depende de atuação conjunta em comportamento, fiscalização, infraestrutura, educação para o trânsito e engenharia baseada em dados.

Nesse contexto, Manzoli ressalta que os acidentes não têm necessariamente uma única causa. Rodovias, por exemplo, envolvem velocidades maiores e a convivência entre veículos de diferentes dimensões e características. Para ele, a análise também deve considerar se a infraestrutura oferece condições seguras para os usuários. “As pessoas erram. O sistema de trânsito precisa ser projetado para que um erro não necessariamente resulte em morte.”

Manzoli, especialista em trânsito, aponta que, para reduzir drasticamente o número de mortes, não bastam apenas ações pontuais | Foto: Alfredo Risk

A avaliação também se aplica à divisão do espaço viário entre automóveis, motocicletas, bicicletas e pedestres. Dos 56 mortos até julho, 32 eram motociclistas ou passageiros de motocicletas, o equivalente a 57,1% do total. Manzoli destaca que a motocicleta oferece mobilidade, mas pouca proteção física em caso de colisão, e defende uma cultura de compartilhamento das vias. Segundo ele, motoristas de automóveis precisam considerar as características próprias das motocicletas e o risco maior enfrentado por quem está sobre duas rodas ou a pé.

O especialista também considera que Ribeirão Preto possui sinalização razoável em boa parte da cidade, mas afirma que alguns pontos precisam de melhoria, manutenção e revisão permanente. Para ele, a análise deve considerar visibilidade, posicionamento, pintura horizontal, iluminação, velocidade regulamentada e compreensão da mensagem pelos usuários. A expansão urbana também precisa ser acompanhada pela infraestrutura de mobilidade.

Manzoli ainda pondera que semáforos e lombadas não devem ser tratados como soluções universais. A adoção desses dispositivos, segundo ele, deve ser precedida por estudos de engenharia de tráfego que considerem velocidade, fluxo, geometria da via, histórico de acidentes, travessias e comportamento dos usuários.

Sobre a formação de novos motoristas, o especialista defende que eventual mudança no modelo de obtenção da CNH não resulte em redução da qualidade do treinamento. Para ele, mais importante do que a obrigatoriedade da autoescola é garantir formação teórica e prática adequada, direção defensiva, convivência com os diferentes usuários das vias e avaliação rigorosa. Ele também defende educação continuada para os condutores.

Impacto econômico

Os acidentes também produzem consequências que ultrapassam o momento da ocorrência. Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o Ipea, consideram entre os custos dos acidentes despesas relacionadas às vítimas, aos veículos, à via e ao ambiente, além da perda de produção provocada por afastamentos, incapacidades e mortes.

Em estudo nacional, o Ipea estimou em cerca de R$ 50 bilhões por ano o custo dos acidentes de trânsito no Brasil. O cálculo considera diferentes componentes, entre eles despesas com atendimento às vítimas, danos materiais e perda de produção.

Quando há feridos, podem ocorrer gastos com atendimento de emergência, internação e recuperação, além do período em que a pessoa fica afastada de suas atividades. Em casos de incapacidade permanente ou morte, o impacto sobre a capacidade produtiva se prolonga.

Ipea estima em R$ 50 bilhões por ano o custo de acidentes de trânsito no País | Foto: Alfredo Risk

O levantamento do Infosiga-SP não transforma esses efeitos em valores específicos para Ribeirão Preto. Seu objetivo é registrar os acidentes e permitir a análise de seus resultados.

Os 991 acidentes registrados na cidade nos sete primeiros meses deste ano incluem desde ocorrências sem feridos até casos com vítimas graves e fatais. São 991 registros que, embora apareçam agrupados em uma estatística, correspondem a situações distintas nas ruas, avenidas e rodovias do município.

Números e casos

Os dados de 2026 mostram uma combinação de tendências. O volume geral de acidentes caiu em relação aos anos anteriores. Em 2023, foram 3.729 ocorrências; nos sete primeiros meses deste ano, 991.

Na mortalidade, o primeiro semestre teve redução de 9,8% em relação ao mesmo período de 2025, mas julho registrou alta de 233,3% na comparação com o mesmo mês do ano passado.

No acumulado de janeiro a julho, foram 56 mortes, duas a mais que em 2025. As motocicletas concentram a maior parcela das vítimas fatais: 32 dos 56 mortos. Os homens representam 80% das vítimas e os condutores, 64,3%. Três quartos dos acidentes fatais ocorreram em vias municipais.

Por trás desses números estão acidentes ocorridos em diferentes pontos da cidade e da região: dois motociclistas mortos depois de atingirem postes na Via Norte; um entregador que não resistiu após uma colisão; um ex-prefeito atropelado em uma rodovia e uma mãe e uma filha mortas depois que o carro em que estavam foi atingido por um guincho.

Inscreva-se em nosso Canal no Whatsapp e fique por dentro de tudo que acontece na região.
Clique Aqui!

VEJA TAMBÉM

Pitty traz nova turnê a Ribeirão Preto em dezembro

Redação

“Porque mereço o seu voto”, explicam os candidatos de Ribeirão Preto

Redação

Masp ganha passagem subterrânea com obra imersiva

Redação

Utilizamos cookies para melhorar a sua experiência no site. Ao continuar navegando, você concorda com a nossa Política de Privacidade. Aceitar Política de Privacidade