Patrícia Casemiro *
Existe uma forma pouco conhecida de contribuir com a reciclagem em Ribeirão Preto, mas que possui um enorme potencial: destinar parte do Imposto de Renda (IR) que você ou a sua empresa já pagam para projetos socioambientais locais. Não se trata de uma doação a mais, tampouco um custo novo. Trata-se de escolher o destino de uma verba que será paga de qualquer forma, porém a direcionando para contribuir com a sustentabilidade da cidade.
Esse caminho não apenas tem nome, mas também é uma lei nacional: Lei de Incentivo à Reciclagem, ou apenas LIR. Criada pelo Governo Federale regulamentada em 2024, ela permite que uma parcela do Imposto de Renda devido seja direcionada a projetos aprovados pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, voltados à reciclagem, à economia circular, à educação ambiental e à inclusão produtiva de catadores e agentes ambientais.
Ao considerarmos o contexto atual da reciclagem em Ribeirão Preto, esse mecanismo é um caminho de extrema relevância para que a cidade possa chegar mais perto de sua capacidade de reciclagem. Atualmente, cerca de 40% do resíduo gerado diariamente no município poderia ser reciclado, mas apenas cerca de 1,3% retorna efetivamente à cadeia produtiva, segundo dados da prefeitura referentes a 2025. Ou seja, quase tudo o que poderia ser reutilizado e virar matéria-prima e renda ainda é enterrado no aterro de Guatapará. A distância entre esses dois números é o nosso maior desafio, mas ao mesmo tempo a nossa maior oportunidade.
Na prática, como funciona?
Para as empresas, no caso de Companhias tributadas pelo Lucro Real, estas podem destinar até 1% do Imposto de Renda devido a um projeto aprovado pela Lei de Incentivo à Reciclagem – LIR, com dedução integral do valor. Em vez de se diluir no orçamento federal, ele fica na cidade, financiando coleta seletiva, educação ambiental e estrutura para cooperativas. É uma forma concreta de cumprir a agenda ESG com resultado local e verificável, sem que a empresa pague nada a mais por isso.
As pessoas físicas, ou seja, os cidadãos comuns, também podem contribuir utilizando apenas o Imposto de Renda. Quem faz a declaração completa do IR (o modelo por deduções legais, e não o simplificado) pode destinar até 6% do imposto devido a projetos sociais e ambientais aprovados. O contribuinte faz a destinação, guarda o comprovante e abate esse valor na declaração. O bolso não sente, mas a cidade, sim.
Na prática, essa doação é mais simples do que parece: basta identificar um projeto aprovado para a LIR, verificar o limite disponível conforme o seu perfil de tributação, fazer a destinação pelo canal indicado, guardar o recibo e informá-lo na declaração. Na dúvida, converse com o contador da sua empresa ou com quem cuida da sua declaração. Isso é algo rotineiro e simples para esses profissionais.
E o que esse recurso financia, efetivamente? Esse é o ponto mais importante: ele pode contribuir com diversas iniciativas em prol da reciclagem. Esse recurso vira, por exemplo, ponto de coleta em condomínios e escolas. Vira treinamento demoradores,funcionários e alunos para separar o material do jeito certo. Vira transporte, balança e equipamento de proteção para quem lida com o resíduo. Vira renda para cooperativas locais, como a Recicla Ribeirão MRM (CRRM), e para agentes ambientais independentes, que sustentam suas famílias com um trabalho essencial e pouco reconhecido.
Promover a reciclagem traz inúmeros benefícios, como a redução do lixo enviado a aterros, diminuição da emissão de gases de efeito estufa e economia de recursos naturais. Mas o efeito mais imediato é econômico e social: cada tonelada de resíduo que volta para a indústria é matéria-prima que não precisou ser extraída e é renda que circula em Ribeirão Preto.
Nada disso depende de um único ator. Depende do morador que separa o material em casa, da empresa que organiza o descarte e usa os mecanismos existentes, do poder público que amplia a coleta e das organizações que fazem a ponte entre a intenção e o resultado. A LIR é uma dessas pontes — e talvez a mais subutilizada.
Ribeirão Preto tem porte, indústria, comércio, universidades e cooperativas ativas. Tem o que é preciso para ser referência em reciclagem no interior paulista. Porém, falta transformar potencial em prática. E, aqui, dá para começar por um gesto que não custa nada além de uma simples decisão: escolher para onde vai parte do imposto que você já paga.
* Responsável por parcerias e soluções ESG no Instituto Recicla+ Ribeirão Preto

