Diagnosticada com câncer de mama em 2013, aos 32 anos, a advogada Camila Carvalho Silva Lelis Lopes precisou concentrar seus esforços no tratamento da doença. Ao mesmo tempo, enfrentou a incerteza sobre a possibilidade de realizar um antigo desejo: tornar-se mãe.
Camila procurou atendimento depois de perceber um nódulo na mama durante o banho, em junho daquele ano. No Hospital de Amor, em Barretos, recebeu a informação de que a quimioterapia indicada para seu caso poderia comprometer a fertilidade. O impacto desses tratamentos varia conforme fatores como idade, reserva ovariana, medicamentos utilizados, doses e duração da terapia.
“Receber o diagnóstico de câncer já era algo muito difícil de assimilar, e saber que o tratamento necessário para salvar minha vida também poderia afetar a possibilidade de ser mãe trouxe uma preocupação a mais. Naquele momento, porém, a prioridade era tratar a doença. Eu precisava confiar na equipe médica, ter fé em Deus e enfrentar uma etapa de cada vez.”
Diante do quadro clínico, a orientação foi iniciar o tratamento sem adiamento. Camila passou por aproximadamente um ano de cuidados que incluíram quimioterapia, cirurgia e radioterapia. Depois, utilizou medicação oral durante cinco anos.
O desejo de ter um filho permaneceu presente, embora precisasse ficar em segundo plano. “Eu não tinha como controlar o que aconteceria no futuro. Precisava viver cada etapa e cuidar de mim”, conta.

Após o tratamento, Camila procurou a reprodução assistida e optou pela fertilização. O procedimento permitiu a formação de embriões que foram congelados para uma possível gestação futura.
“Para mim, procurar uma clínica de reprodução assistida não significou deixar de acreditar na vida ou na possibilidade de gravidez. Significou buscar informação, conhecer as alternativas disponíveis e tomar decisões com mais planejamento e segurança, sempre respeitando minha história e minhas condições de saúde”, afirma.
Antes de utilizar os embriões, Camila e o marido, Ricardo Lelis Lopes, descobriram, em setembro de 2021, que esperavam um filho. Augusto nasceu em junho de 2022, nove anos depois do diagnóstico, e hoje está com quatro anos.
“Foi uma emoção imensa, porque eu carregava esse sonho havia muitos anos e sabia tudo o que tinha vivido até chegar àquele momento. Depois de enfrentar o câncer e todas as incertezas relacionadas à fertilidade, descobrir que estava gerando uma vida foi algo muito especial.”
Camila considera agora a possibilidade de uma segunda gestação, desta vez com os embriões preservados. A decisão será acompanhada pelos profissionais responsáveis por seus cuidados, porque o momento adequado para uma gravidez depois do câncer varia conforme o quadro clínico, o tipo de tumor e o tratamento realizado.
“Hoje, pensar em uma segunda gestação é olhar para o futuro com esperança, mas também com responsabilidade”, explica.
Preservação deve ser discutida após o diagnóstico

A ginecologista Rebeca Pontelo, do Centro de Fertilidade de Ribeirão Preto (Ceferp), explica que a preservação da fertilidade deve ser discutida logo após o diagnóstico, quando ainda é possível analisar o tratamento previsto, as condições clínicas da paciente e o tempo disponível antes do início da terapia oncológica.
“Idealmente, a preservação da fertilidade deve ser discutida logo após o diagnóstico e antes do início do tratamento oncológico, sempre que houver indicação. O ideal é que o oncologista e o especialista em reprodução humana trabalhem em conjunto.”
Para avaliar o possível impacto da quimioterapia sobre os ovários, os médicos consideram a idade da paciente, a reserva ovariana anterior ao tratamento, os medicamentos empregados, as doses e a duração da terapia. Esses fatores ajudam a explicar por que a resposta varia entre as mulheres.
“Mulheres mais jovens tendem a ter uma maior chance de recuperação da função ovariana, mas não existe garantia. Mesmo quando a menstruação volta, pode ter havido redução importante da reserva ovariana.”
A idade no momento do congelamento influencia a qualidade dos óvulos. A reserva ovariana e a quantidade preservada também interferem nas possibilidades futuras. Mesmo depois da coleta e do congelamento, o procedimento não representa garantia de gravidez.
Câncer de mama causa mais de 20 mil mortes por ano no país
O Brasil registrou 20.849 mortes por câncer de mama feminino em 2024, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA). A doença é a principal causa de morte por câncer entre as mulheres brasileiras. O instituto estima ainda 78.610 novos casos anuais entre 2026 e 2028.
As taxas de mortalidade aumentam nas faixas etárias mais avançadas. As mulheres de 50 a 69 anos concentram aproximadamente 45% das mortes provocadas pela doença no país, de acordo com o INCA.
Em Ribeirão Preto, foram registradas 95 mortes por câncer de mama em 2025. Dados preliminares apontam outras 74 mortes entre janeiro e 9 de outubro deste ano.

