Por: Adalberto Luque
O Brasil registrou 308.440 roubos e furtos de veículos em 2025, média de aproximadamente 845 casos por dia. O total caiu 14,3% em relação a 2024, quando foram contabilizadas 345.503 ocorrências, mas continua expressivo. Foram 203.949 furtos e 104.491 roubos. A redução foi maior nos roubos, que recuaram 20,6%, enquanto os furtos diminuíram 10,6%.
Um levantamento da Loovi Seguros, realizado com dados da própria empresa no primeiro semestre de 2026, relacionou os dez modelos com maior volume de ocorrências em sua base. A lista reúne Ford Ka, Chevrolet Onix, Volkswagen Gol, Hyundai HB20, Renault Sandero, Fiat Argo, Renault Logan, Fiat Uno, Fiat Palio e Volkswagen Voyage. Sete desses modelos já deixaram de ser fabricados no Brasil: Ka, Gol, Sandero, Logan, Uno, Palio e Voyage.
O ranking não corresponde a um levantamento oficial de todos os registros policiais brasileiros, mas a um recorte da base da Loovi. Ainda assim, chama a atenção para a presença de automóveis populares e de modelos cuja produção foi encerrada. Esses veículos continuam circulando por muitos anos e precisam de manutenção, o que mantém a demanda por peças. Essa procura legítima, porém, também pode ser explorada por redes criminosas que desmontam veículos furtados ou roubados e comercializam componentes de origem ilegal.
O Ford Ka, por exemplo, deixou de ser produzido no país após o fechamento das fábricas da Ford no Brasil, mas permanece nas ruas. O encerramento da fabricação, isoladamente, não explica a ocorrência de crimes: quantidade de unidades em circulação, localização e procura por componentes também influenciam os registros. O mesmo cuidado vale para os demais modelos da lista.
A quantidade absoluta de ocorrências também não equivale à probabilidade individual de um automóvel ser levado. Um modelo muito vendido pode aparecer mais vezes nas estatísticas simplesmente porque há mais unidades circulando. Para comparar o risco proporcional, seria necessário considerar o tamanho da frota de cada modelo, além das diferenças regionais e dos períodos analisados.
Seguro e prevenção
A Loovi também chama a atenção para a baixa cobertura securitária no país. Segundo dados divulgados pela empresa, no fim de 2025 apenas 30% dos veículos brasileiros tinham seguro. Entre os automóveis, a cobertura era de 27,8%, deixando a maior parte da frota sem essa proteção.
A perda de um carro pode comprometer recursos acumulados durante anos e afetar a rotina de trabalho e deslocamento. Mesmo quando o veículo é recuperado, isso não significa que esteja em condições de uso ou que todos os prejuízos tenham sido eliminados. O seguro pode reduzir o impacto financeiro, conforme as condições contratadas, mas não impede necessariamente a ocorrência do crime.

Quézide Cunha, CEO da Loovi, afirma que modelos antigos, descontinuados ou com maior incidência de ocorrências podem enfrentar restrições em seguradoras tradicionais. A empresa, especializada em seguro automotivo digital, diz utilizar tecnologia e dados para ampliar as alternativas de proteção. A aceitação, contudo, depende de diversos fatores, como ano do veículo, local de circulação e pernoite, perfil de utilização e histórico de sinistros. A posição em um ranking não determina, sozinha, se um automóvel será aceito ou quanto custará a apólice.
Cuidados cotidianos, como conferir o travamento das portas, não deixar objetos à vista e observar o entorno antes de entrar ou sair do veículo, podem reduzir algumas oportunidades de furto. Rastreamento e outros recursos eletrônicos também podem auxiliar na localização, mas não eliminam o risco. Em caso de abordagem criminosa, não reagir é essencial para preservar a integridade física.
Furtos em alta
Ribeirão Preto registrou 1.013 furtos e 84 roubos de veículos entre janeiro e agosto de 2026, total de 1.097 ocorrências, segundo dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP). Considerando os 243 dias abrangidos pelo período divulgado, a média equivale a aproximadamente 4,5 veículos levados por dia, ou um a cada cinco horas e 19 minutos.
A comparação entre janeiro e agosto de cada ano mostra que o total de furtos e roubos caiu de 1.200 em 2023 para 1.182 em 2024 e 982 em 2025. Neste ano, voltou a subir, chegando a 1.097 casos, alta de 11,7% em relação ao mesmo período do ano passado. Apesar da retomada, o número ainda é 8,6% inferior ao de 2023.
Os roubos seguem trajetória de queda. Foram 284 registros nos oito primeiros meses de 2023, 137 em 2024, 128 em 2025 e 84 em 2026. A redução foi de 70,4% em três anos e de 34,4% na comparação com o ano passado.
Nos furtos, o movimento foi diferente: os registros passaram de 916 em 2023 para 1.045 em 2024, recuaram para 854 em 2025 e subiram novamente, chegando a 1.013 neste ano. O resultado representa aumento de 18,6% sobre o mesmo período de 2025 e fica 3,1% abaixo do total registrado entre janeiro e agosto de 2024.

No ano completo, Ribeirão Preto contabilizou 1.369 furtos e 403 roubos em 2023; 1.450 furtos e 216 roubos em 2024; e 1.327 furtos e 188 roubos em 2025. Os números de 2026 são parciais e abrangem somente os dados disponíveis até agosto.
Não há um ranking oficial municipal dos modelos mais furtados ou roubados. Um levantamento realizado junto à SSP em 2023, entretanto, indicou que 87% das caminhonetes furtadas ou roubadas na cidade naquele recorte eram Toyota Hilux.
Informações apuradas pelo Tribuna Ribeirão apontam que a zona Sul, atendida pelo 4º Distrito Policial, esteve entre as áreas mais visadas. Em fevereiro de 2022, a Rua Paschoal Bardaro, no Jardim Botânico, registrou três furtos de veículos em uma única noite. Em um semestre, foram dez ocorrências na via. Em 2023, ações pontuais e prisões de quadrilhas especializadas, principalmente em furtos de caminhonetes de luxo, contribuíram para a redução dos casos observados na região.
Furtos e roubos influenciam preço
O risco de furto e roubo de veículos interfere diretamente no cálculo do seguro automotivo. Segundo Márcio Mussi Gomes, diretor da MMussi Corretora de Seguros, as seguradoras consideram, entre outros fatores, as estatísticas regionais das ocorrências e o perfil do veículo. Modelos produzidos em grande escala também podem despertar maior interesse dos criminosos, devido à demanda por peças usadas.

Na avaliação de Mussi, a escassez de componentes automotivos no mercado brasileiro tem contribuído para aquecer o comércio ilegal de peças e ampliar o interesse por veículos furtados ou roubados. Ele afirma que os carros podem ser destinados a desmanches, comercializados em outros estados ou países ou utilizados em esquemas de clonagem.
O diretor explica que o mercado segurador considera conjuntamente os casos de roubo e furto, sem diferenciar os dois crimes na avaliação geral do risco. Por isso, a redução dos roubos, quando acompanhada pelo aumento dos furtos, não representa necessariamente uma diminuição equivalente do risco para as seguradoras.
Para Mussi, a contratação do seguro também exige atenção às informações fornecidas pelo proprietário. “Uma apólice de seguro auto, feita com responsabilidade, considerando detalhes do risco informados com precisão, vai deixar o cidadão totalmente protegido dos danos patrimoniais”, afirma.
Recuperações caem
As forças de segurança recuperaram 404 veículos em Ribeirão Preto entre janeiro e agosto de 2026, de acordo com a SSP. O número é 9,6% menor que o registrado no mesmo período de 2025, quando foram localizados 447 veículos. Na média, foram recuperados cerca de 1,7 veículo por dia neste ano, o equivalente a um a cada 14 horas e 25 minutos, enquanto um carro é roubado a cada cinco horas e 19 minutos.
A comparação com os anos anteriores mostra uma redução mais expressiva. Nos oito primeiros meses de 2024, foram recuperados 410 veículos, 1,5% a mais que em 2026. Em 2023, o total chegou a 516, uma diferença de 112 veículos em relação ao resultado deste ano — queda de 21,7%.

A média diária também recuou. Em 2023, as forças de segurança recuperaram aproximadamente 2,1 veículos por dia, ou um a cada 11 horas e 18 minutos. Em 2024, foram cerca de 1,7 por dia, enquanto em 2025 a média ficou em 1,8.
Nos balanços anuais, o total de recuperações caiu de 801 veículos em 2023 para 661 em 2024 e 650 em 2025. A redução acumulada entre 2023 e 2025 foi de 18,9%. O resultado de 2026 considera apenas os registros de janeiro a agosto e, portanto, ainda não pode ser comparado diretamente aos totais dos anos completos.
Elétricos visados
Os roubos e furtos de veículos elétricos e híbridos também cresceram em São Paulo em 2026. Levantamento da Ituran Brasil baseado em dados oficiais da SSP, divulgado pela revista Quatro Rodas, contabilizou 101 ocorrências entre janeiro e maio deste ano, contra 44 no mesmo período de 2025. O aumento foi de 129%.
Os dados se referem ao estado e não permitem afirmar que o mesmo crescimento tenha ocorrido em Ribeirão Preto. O avanço acompanha a expansão da frota eletrificada e o interesse por componentes de alto valor.
Reportagem publicada pelo UOL Carros em agosto deste ano destacou a atenção voltada às baterias de alta tensão. Esses componentes podem custar caro para reposição e pesar centenas de quilos, dependendo do modelo. A remoção exige equipamentos e procedimentos específicos, o que torna o roubo do veículo inteiro para posterior desmontagem uma das possibilidades investigadas.
A existência de componentes valiosos, porém, não significa que todos os veículos elétricos estejam igualmente expostos. O risco depende do modelo, da quantidade de unidades em circulação e das características de cada região. Os números paulistas mostram o crescimento das ocorrências no período analisado, mas não permitem projetar automaticamente a mesma tendência para outros municípios.
Destino dos veículos
O furto ou roubo de um automóvel pode ser apenas a primeira etapa de uma cadeia criminosa. Depois da subtração, o veículo pode ser desmontado para a venda de peças no mercado clandestino, adulterado para dificultar sua identificação ou negociado ilegalmente em outra região. Também há casos de clonagem, em que os sinais identificadores de um veículo são alterados para imitar os de outro com documentação regular.
A Polícia Civil e a Polícia Rodoviária Federal (PRF) registram operações contra grupos que atuam nessas diferentes frentes. Em janeiro de 2026, a Polícia Civil de Goiás investigou uma associação criminosa suspeita de receber caminhonetes provenientes de crimes praticados em São Paulo, transportá-las com placas falsas, adulterar seus sinais identificadores e desmontá-las para vender as peças ilegalmente. Em outra operação, divulgada pela PRF e pela Polícia Civil goiana em 2024, foram identificados veículos roubados e componentes destinados ao comércio clandestino.
Outra possibilidade é a adulteração para revenda. Nesse caso, os criminosos modificam placas, chassis ou outros sinais identificadores para fazer o veículo parecer regular. A clonagem também pode envolver a reprodução dos dados de um automóvel legítimo em outro de origem criminosa. Com isso, o carro pode ser oferecido a compradores desavisados ou circular com menor chance de ser identificado em uma fiscalização.

Veículos também podem ser transportados para outros estados ou países, onde são negociados ou desmontados. O Paraguai é apontado por especialistas como um dos destinos procurados por quadrilhas que atuam com determinados modelos, entre eles a Toyota Hilux. A destinação varia conforme o tipo de veículo, a organização criminosa e as oportunidades de comercialização.
Carros clonados podem ainda ser utilizados na prática de outros delitos, inclusive roubos e assaltos, porque a adulteração dificulta a identificação do veículo original. Isso não significa que todo automóvel furtado ou roubado tenha esse destino: as investigações identificam diferentes modalidades, desde o desmanche até a revenda fraudulenta.
Um estudo do Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio de Janeiro, divulgado pela Agência Brasil em junho de 2026, ajuda a dimensionar a relação entre os crimes e a destinação dos veículos. Segundo o levantamento, cerca de 80% dos veículos roubados ou furtados no estado em 2025 foram recuperados em cinco municípios: Rio de Janeiro, Duque de Caxias, São Gonçalo, Belford Roxo e São João de Meriti.
Das 17.228 recuperações realizadas naquele ano, 18% se concentraram em seis regiões da capital fluminense, incluindo áreas do Chapadão, Pedreira, Juramento, Manguinhos, Parque Arará e Complexo da Maré. O estudo apontou que grande parte dos veículos foi encontrada dentro ou nas proximidades de comunidades controladas por organizações criminosas. O ISP também identificou concentração territorial dos crimes: metade dos roubos e furtos registrados na capital ocorreu em 4,3% da área do município.
O levantamento se refere ao Rio de Janeiro e não deve ser generalizado para todo o país. Ainda assim, evidencia que a recuperação de veículos e o combate ao crime organizado exigem atenção às redes de receptação e aos locais utilizados para esconder, adulterar ou desmontar automóveis.
A repressão ao furto e ao roubo não se limita à identificação de quem leva o veículo: também depende de interromper a cadeia que permite transformar o bem subtraído em dinheiro. E para essa interrupção ter sucesso, passa diretamente pelo possível comprador. Quem vê vantagem em comprar peças sem procedência não apenas alimenta o mercado criminoso, como também coloca seu próprio bem na mira do crime.

