José Eugenio Kaça *
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Homens ungidos (terrivelmente evangélicos) estão criando no Brasil um clima de obscuridade, que vai induzindo a população a uma guerra espiritual, onde não haverá vencedores. E este ambiente da luta do bem contra o mal vai minando a laicidade do Estado expressa na Carta Magna, e assim abrindo as portas para um Estado teocrático. As relações humanas sempre foram conflituosas, mas as redes sociais estão colocando a discórdia, ao ponto de se falar na formação de um exército de Cristo, que vai combater os infiéis. E a luz que surgiria com a chegada do século 21 virou trevas; e a Idade Média seguiu no horizonte com força.
O perigo do retrocesso institucional e nas relações humanas está mais perto do que poderíamos imaginar. Havia uma esperança de que depois da pandemia de Covid-19, os seres humanos começariam a refletir sobre a importância da solidariedade, e com isso um novo ser humano iria surgir; entretanto, o que aconteceu foi o acirramento das ideias retrógradas, que retira do ser humano a criticidade, que permite ao ser humano refletir sobre a sua autonomia. A democratização trazida pela Carta cidadã, permitiu que o povo pobre pela primeira vez experimentasse o sentimento de que tinha os mesmos direitos das camadas privilegiadas. Saúde, educação, assistência social, e políticas que elevou o patamar do povo pobre, apesar de estarmos longe do ideal de uma vida digna para todos, mas avançamos.
As eleições deste domingo vão definir que País queremos viver. Se continuaremos a construir e melhorar a nossa Democracia, ou se vamos entregar a nossa liberdade e autonomia para o Império do Norte. Numa situação normal, não seria difícil escolher, porém, o clima de guerra santa induzido pelos homens “ungidos” está induzindo a população ao erro, pois por incrível que pareça as duas proposições estão disputando o voto a voto. Que tragédia! Este fenômeno está diretamente ligado ao fundamentalismo religioso pentecostal. No passado havia os comícios, que foram se transformando em showmícios, pois atraiam a população, com shows de seus artistas preferidos antes das falas dos candidatos – era uma festa. E o candidato que tinha mais dinheiro levava os artistas mais famosos e com isso mais público, e em nome da equidade, os showmícios foram proibidos.
Aí abriu-se a oportunidade, e as pentecostais aproveitaram. Como as igrejas pentecostais estão livres, leves e soltas abriram suas portas para que os candidatos afinados com suas ideologias, e os púlpitos passaram a ser o local dos showmícios, sem custos e com uma plateia fiel. Como o segmento pentecostal cresceu muito nos últimos tempos, vem criando na política um mundo paralelo, onde candidatos indicados pelos “homens ungidos” estão livres das acusações mundanas, pois o que falam deles faz parte da guerra espiritual, e com isso nada cola neles – são iguais ao teflon. E com isso as ideias retrógadas, vinda do Império são aceitas pelos fies com tranquilidade, pois acham que estão do lado certo da guerra espiritual, e ganharam o Reino do Céu.
Parte da população está em transe e segue cegamente seu líder religioso, e isso contribui para a criação do indigente político. Criar um ambiente de descrença na política e nas instituições é a ferramenta da extrema direita e dos homens “ungidos”. Dizem que o Brasil está à beira do abismo, que os preços dos alimentos dispararam – tudo está um caos. Acontece que a memória da maioria da população é seletiva. Tivemos as maiores atrocidades já ocorridas neste País, com o governo anterior, que pra variar está preso por tentativa de golpe de Estado. Um governante que contribuiu para a morte de milhares de brasileiros, que colocou mais de trinta milhões abaixo da linha de pobreza, onde tivemos a maior inflação de alimentos, sem falar no entreguismo e na lambeção de botas do Tio Sam.
Se não bastasse tudo isso, agora seu filho candidato a presidente, quer aprofundar a subserviência e entregar de vez o Brasil ao Império Norte. E a prova cabal que comete o crime de lesa pátria é que promessa de fazer a transição de governo na terra do Tio Sam, e de joelhos entregar o destino do povo para o Império. A escolha não é difícil, de um lado a autonomia do poço, e do outro a interferência de uma potência estrangeira na vida do povo brasileiro. A escolha não é difícil!
* Pedagogo, líder comunitário e ex-conselheiro da Educação

