André Luiz da Silva *
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Domingo é dia de feira. Aqui em casa, a Feira de Domingo é quase tão sagrada quanto a missa. Mas desta vez ela divide a manhã com o grande dia: o ápice da festa democrática, com milhões de brasileiros a caminho de mais de 472 mil seções eleitorais. Como sempre, acordo cedo.
No caminho, já sei o que me espera: santinhos pelo chão. Apesar da proibição, sempre aparece algum espertinho que deixa o material estrategicamente espalhado. Há um motivo: dezenas de eleitores garimpam santinhos, principalmente nas filas dos portões da escola. Sim, na minha cidade existem filas, dos madrugadores que esperam a abertura e dos retardatários que chegam ao apagar das luzes.
Eu conheço os horários de menor fluxo e voto com tranquilidade. Voto na escola onde cursei o primário, então vem sempre uma pitada de nostalgia: os amigos das antigas, um fato para recordar, a notícia de algum conhecido que se foi. Fiscais de partido e da Justiça Eleitoral ficam me rondando, desconfiados de boca de urna. Que nada, é fofoca mesmo.
Aliás, entre nós, voto não se discute. Como deve ser num Estado democrático de direito, cada um tem sua escolha, e ela merece respeito. Houve um tempo em que debatíamos projetos e propostas. Depois, passamos a debater nomes. Ultimamente, a conversa se resume a saber de que lado você está. E isso é péssimo.
Talvez por isso a campanha tenha perdido o colorido. Alguns sentem saudade do tempo em que a eleição aquecia a economia: o motorista da perua Kombi, os bandeiristas, os panfleteiros (uns de casa em casa, outros nas esquinas), quem fincava plaquinhas, quem organizava reuniões e comícios, o rapaz do carro de som, o músico do jingle.
Tudo isso está acabando. Sobraram mensagens virtuais entulhando a memória do celular e o tal “wind banner”, em quantidade exagerada, diga-se. Na TV, o horário político ficou chato, os debates esvaziaram, e as entrevistas ignoram planos de governo para repercutir frases de rede social ou cobrar explicações sobre escândalos.
No mundo ideal, escolheríamos candidatos preocupados com problemas que dizem respeito a toda a comunidade. Na prática, caminhamos para a desinformação e para o rompimento com a realidade. Nesta eleição cresceu o número de candidatos caricatos, religiosos e vindos das forças de segurança. Crescem também as dinastias que transformam eleição em negócio de família. Um exemplo claro: a família de um ex-presidente reúne oito candidatos em quatro estados, entre três filhos, a esposa, a ex-esposa, o irmão e primos. Muito unida, essa família, enquanto tantas outras se digladiam e rompem laços para defender seus políticos de estimação.
E como brigam! Há cristão pregando ódio, altar e púlpito virando palanque, e nem Nossa Senhora escapou da confusão.
O mais curioso é o efeito Vorcaro, capaz de deturpar até a lenda tendai-budista dos três macacos: “não veja o mal, não ouça o mal, não fale o mal”. Em nome do seu candidato, muita gente não vê, não ouve e não fala sobre o que as gravações revelaram. Atolados no maior escândalo político, financeiro e moral da nossa história, alguns candidatos seguem fingindo santidade, incensados por seguidores que criticam o cisco no olho alheio e esquecem a trave que cega o próprio.
Bom, deixa eu procurar meu título e preparar minha colinha. Boa sorte, bom voto, e que Deus, Jesus Cristo, Nossa Senhora Aparecida, os Orixás, Tupã, Buda,Krishnaou aquilo em que você acredita abençoe, proteja e guarde o Brasil.
* Servidor municipal, advogado, escritor e radialista

