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O Centro precisa de gente e atitudes, não apenas de boas intenções

Maurílio Biagi Filho *

Há quanto tempo ouvimos falar da revitalização do Centro de Ribeirão Preto? Quantos projetos já foram apresentados? Quantas reuniões, palestras, debates e promessas foram feitos em nome da recuperação de uma região que guarda parte importante da história e da identidade da nossa cidade? E, depois de tudo isso, o que efetivamente mudou?

Temos a impressão de que estamos há décadas discutindo o mesmo assunto, muitas vezes com os mesmos argumentos, enquanto o Centro continua perdendo vitalidade. Não faltaram boas intenções, estudos ou propostas. Faltaram continuidade, coordenação e, principalmente, ações capazes de produzir transformações duradouras.

Mas um acontecimento recente merece ser destacado e, sobretudo, valorizado. No último dia 20 de outubro, durante encontro promovido pela revista Revide, na Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (Acirp), o prefeito Ricardo Silva assinou o decreto que institui uma Comissão Gestora para a revitalização do Centro. Uma iniciativa que merece nosso reconhecimento e que pode representar, finalmente, o início de uma mudança concreta.

Cumprimentos especiais à Revide e àAcirp pela realização desse encontro e pela capacidade de reunir poder público e representantes da sociedade em torno de uma causa tão importante. Também merece parabéns o prefeito Ricardo Silva por seu envolvimento e pela decisão de formalizar essa iniciativa. É um passo relevante, que demonstra disposição para enfrentar um problema que se arrasta há décadas.

Nossa expectativa, entretanto, é que este seja realmente o começo de uma transformação, e não apenas mais um capítulo de uma história marcada por boas intenções que não se concretizaram. Esperamos, sobretudo, que a Comissão Gestora seja efetivamente gestora. Que não se limite a reunir propostas e produzir documentos, mas estabeleça prioridades, construa um cronograma realista, identifique os recursos necessários, articule os responsáveis e trabalhe para viabilizar cada uma das ações previstas.

Durante décadas, o Centro foi o principal ponto de encontro de Ribeirão Preto. Era onde as pessoas trabalhavam, faziam compras, frequentavam cinemas, teatros, restaurantes. Hoje, quem caminha por suas ruas encontra imóveis fechados, prédios deteriorados, espaços públicos malcuidados e uma sensação de abandono que contrasta com a importância histórica e cultural da região.

É evidente que a cidade mudou. A consolidação dos shopping centers alterou os hábitos de consumo e deslocou parte do movimento comercial para outras regiões. Temos, inclusive, um shopping no Centro, mas com características mais próximas de um empreendimento de vizinhança e conveniência. Não se trata de recuperar o passado, mas de encontrar novas vocações para uma região que precisa voltar a atrair moradores, empresas, serviços e investimentos.

Ao longo dos anos, tivemos a implantação e as reformas do calçadão, propostas de requalificação e discussões sobre o aproveitamento de edifícios antigos. Em 2024, a Acirp, em parceria com o Instituto Paulista de Cidades e Identidades Culturais (IPCIC), apresentou o Requalifica Ribeirão, com um diagnóstico econômico, social e urbanístico do Centro, estudo conduzido pela jornalista e pesquisadora Adriana Silva. Esse trabalho, que deverá servir de referência para as ações da nova comissão, representa uma contribuição importante, pois oferece uma base técnica para que as decisões não partam novamente do zero.

Em fevereiro de 2025, a Acirp também promoveu um encontro com o arquiteto e urbanista Paulo Kawahara, ligado ao escritório Jaime Lerner Arquitetos Associados, com patrocínio do meu irmão Luiz, um entusiasta dessa causa, assim como tantos de nós. A própria entidade revitalizou sua sede, a Prefeitura mudou de instalações, permanecendo no Centro após o cancelamento do projeto de uma nova sede administrativa, e o MARP e o Palácio Rio Branco também passaram por reformas.

São iniciativas que merecem reconhecimento, mas que, isoladamente, não conseguem transformar a realidade de toda uma região. O que precisamos agora é essa ação coordenada, com começo, meio e fim, capaz de integrar os esforços públicos e privados em torno de objetivos comuns.

E aqui permanece uma questão fundamental: será que a revitalização do Centro é realmente uma prioridade para todos aqueles que têm condições de promovê-la? Todos parecem concordar com sua importância, mas, quando chega a hora de tomar decisões, assumir compromissos e fazer investimentos, os interesses econômicos muitas vezes falam mais alto. Talvez esteja aí uma das explicações para tantos projetos que nunca se transformaram em realidade.

Temos convicção de que não existe revitalização sem ocupação. E não haverá ocupação significativa sem condições econômicas que estimulem os investimentos. Por que tantos empreendimentos imobiliários encontram viabilidade nas regiões mais novas da cidade, enquanto prédios bem localizados no Centro permanecem fechados ou subutilizados? É legítimo que empresários busquem retorno financeiro. Cabe ao poder público criar condições para que recuperar um imóvel no Centro também seja economicamente interessante, e é isso que tem que ser priorizado, deve ser o ponto de partida.

Por isso, é indispensável que o trabalho da comissão resulte em uma política clara e ostensiva de incentivos fiscais, com possibilidades de redução ou isenção temporária de tributos, estímulos à recuperação de edifícios, simplificação de procedimentos e segurança jurídica. São Paulo, apesar de enfrentar problemas muito maiores, já adotou mecanismos dessa natureza por meio do programa Requalifica Centro, que prevê incentivos para a modernização de imóveis antigos. Não resolveu todos os problemas, mas demonstra que existem instrumentos capazes de estimular a iniciativa privada.

Também precisamos rever entraves da legislação urbanística. Muitos prédios antigos foram construídos quando havia menos automóveis e não possuem garagens compatíveis com determinadas exigências atuais. É necessário avaliar a flexibilização dessas regras e facilitar a adaptação dos imóveis para novos usos, inclusive residenciais. Isso exige iniciativa da Prefeitura e participação da Câmara Municipal. Se a legislação dificulta a recuperação do Centro, é preciso ter disposição para modificá-la.

Temos um patrimônio extraordinário, representado pelo Theatro Pedro II, pela Praça XV de Novembro, pela Catedral Metropolitana e pelo Quarteirão Paulista, que abriga o famoso Pinguim. Estamos, inclusive, empenhados em uma mobilização para salvar nossa Catedral. E contamos com exemplos admiráveis de recuperação e ocupação de espaços, como a Biblioteca Sinhá Junqueira, o Palacete 1922 e a Casa da Memória Italiana. Mas essas iniciativas, por mais importantes que sejam, precisam fazer parte de um movimento mais amplo de recuperação da região.

O mesmo vale para as intervenções públicas. Na Praça das Bandeiras, estruturas que receberam investimentos acabaram deterioradas. De que adianta reformar se não existe manutenção? De que adianta inaugurar se não há continuidade? São exemplos de como ações isoladas, sem planejamento e gestão permanente, acabam desperdiçando recursos e oportunidades.

A composição da nova Comissão Gestora, reunindo representantes do poder público, entidades e setores da sociedade civil, é uma oportunidade de superar essa fragmentação. Esperamos que seus integrantes assumam um compromisso efetivo com resultados e que as entidades representativas da cidade contribuam com propostas, conhecimento técnico, capacidade de mobilização e disposição para enfrentar os obstáculos que certamente surgirão.

Mas é importante não inverter as responsabilidades. A participação da sociedade é fundamental, porém a liderança desse processo precisa continuar sendo da Prefeitura. É o poder público municipal que dispõe dos instrumentos de planejamento urbano, da capacidade de propor incentivos, encaminhar mudanças legislativas e coordenar investimentos. A criação da comissão é um passo importante, mas seu verdadeiro valor será medido pela capacidade de transformar planejamento em execução.

Recebemos a criação da Comissão Gestora com satisfação e esperança.Ribeirão Preto já demonstrou sua capacidade de crescer e se reinventar. Que essa iniciativa represente, finalmente, a oportunidade de fazer o mesmo com o seu Centro.Discursos não revitalizam ruas, não recuperam edifícios e não atraem investimentos. Ações, sim.

Celebremos a nova comissão, que ela honre seu nome, transforme o diagnóstico em planejamento, o planejamento em decisões e as decisões em realizações. Porque o Centro de Ribeirão Preto não precisa de mais uma promessa. Precisade resultados.Vamos acompanhar e daqui um tempo trazer mais notícias.


* Membro do Instituto Ribeirão 2030

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