Rui Flávio Chúfalo Guião *
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Abro a janela de meu quarto e vejo, pendurada no muro da vizinha, uma bela flor da alamanda sanguínea. Ela é prima da versão amarela, mais conhecida e mais presente nos jardins.
A visão abre com alegria a minha manhã e me estimula a perguntar como surgiram as plantas trepadeiras, representadas pelo pequeno galho que pulou por cima da divisa com a casa ao lado.
As plantas surgiram na Terra há um bilhão de anos, com as algas verdes dos oceanos, parentes próximas das que depois surgiriam na superfície terrestre, em torno de quinhentos milhões de anos atrás. Tiveram evolução demorada para desenvolver raízes, vasos condutores de seiva, sementes, pólen e, finalmente flores.
As plantas trepadeiras teriam surgido há centenas de milhões de ano, da necessidade que elas tiveram de buscar a luz. Nas florestas incipientes, árvores de pequeno porte preparavam-se para futuros grandes exemplares e algumas plantas menores, para fazer a fotossíntese com a luz solar, começaram a se apoiar e depois a se enroscar nos espécimens maiores, com ganchos e gavinhas e desenvolveram a capacidade de terem caules flexíveis, por onde fluía a sua seiva.
E assim, chegamos à nossa época, onde mais de vinte milhões de plantas trepadeiras se alastram pelo nosso mundo, sendo que aproximadamente cinco mil são nativas do Brasil, dentre elas, a alamanda que encantou meu dia.
Talvez a cor sanguínea me lembrasse do vinho que tanto aprecio, pois lembrei que a trepadeira mais cultivada pelo homem hoje em dia é a videira, com basicamente duas variedades: a vitis vinífera, originária da Europa e a vitis americana, procedente da América do Norte, que se destinam não só a produzir uvas para consumo in natura, como para a fabricação de vinho.
O aperfeiçoamento do cultivo das uvas, conduzindo as videiras em cercas verticais ou em caramanchões, nos faz esquecer que ela é um trepadeira como qualquer outra e, se não domada pelo homem, começa a subir nas árvores e em suportes que encontre pelo caminho.
Os amantes do vinho sabem que o cultivo das videiras produziu e produz várias e interessantes lendas e histórias, e sabem também que o bom vinho nasce primeiro de um bom cultivo da planta. O vinho é dela produzido há milhares de anos e representa importante alimento e expressão cultural de vários povos, especialmente do europeu.
Na década de 1860, as grandes plantações europeias de uva começaram a morrer, dando início a uma crise sem precedente na gigantesca vitivinicultura do continente: os vinhedos haviam sido atacados por pequenos insetos, que se instalavam nas raízes, impedindo que a seiva circulasse pelos dutos. Foram testados vários remédios: inundação dos vinhedos, uso de inseticidas, tratamento do solo, tudo sem sucesso.
Depois de intensas pesquisas, descobriu-se que estes insetos vieram de amostras da vitis americana, trazidas para estudos de aperfeiçoamento das videiras.
A variedade americana convivia saudavelmente com a filoxera e , se foi a causa do problema, também trouxe a solução: os viticultores descobriram que o futuro de uma das maiores indústrias europeias estava nouso de pés de vitis americana como porta-enxerto, aos quais se inseriam a vitis vinífera, prática que perdura até hoje.
* Advogado, empresário, Presidente do Conselho do Grupo Santa Emília, Secretário-Geral da Academia Ribeirãopretana de Letras

