Marcos Papa *
Enquanto as maiores economias do planeta debatem prazos distantes e desembolsam trilhões de dólares buscando fórmulas para descarbonizar suas matrizes, mais uma vez o Brasil oferece ao mundo uma resposta concreta, viável e que já está em pleno funcionamento. A transição energética global, longe de ser um desafio futurista, é uma realidade premente que se alimenta diretamente dos campos brasileiros. No centro dessa revolução verde está o setor de biocombustíveis, segmento no qual nosso país não apenas compete, mas lidera com a tecnologia que incrementa alta produtividade, transformando a necessária, e agora mais do que nunca urgente, pauta ambiental, num motor de soberania econômica e geopolítica.
Essa vanguarda tem um coração geográfico muito claro: a Região Metropolitana de Ribeirão Preto. Consolidada como o maior polo sucroenergético do planeta, nossa região sintetiza perfeitamente o amadurecimento de um setor que sempre foi agrícola, mas que agora agigantou-se numa potência global de biotecnologia de ponta. Usinas de açúcar e álcool amplificaram seus espaços para o conceito revolucionário biorrefinarias integradas. Esses complexos industriais de alta tecnologia são extraem soluções limpas de cada fração da biomassa da cana-de-açúcar, unindo o conhecimento prático do campo à pesquisa acadêmica de excelência e à densidade de startups agrícolas presentes nos ecossistemas de inovação atuantes aqui.
São imensos os benefícios ambientais dessa substituição em larga escala. O etanol de cana reduz em até 80% as emissões de gases de efeito estufa em comparação com a gasolina, considerando todo o ciclo de vida do combustível. Trata-se de uma ferramenta imediata para a urgente mitigação climática. Enquanto a eletrificação total das frotas exige investimentos colossais em infraestrutura de recarga e substituição de veículos — um processo complexo que levará décadas para se consolidar mundialmente —, o biocombustível roda na infraestrutura que já existe. Ele limpa a matriz de transporte de forma imediata, economicamente viável e democraticamente acessível para o consumidor final.
Contudo, a verdadeira transformação reside nas novas fronteiras que se abrem a partir desse ecossistema. O grande salto atual é o aproveitamento de resíduos históricos do processo industrial, como a vinhaça e a torta de filtro, para a produção massiva de biometano. O que antes era um passivo ambiental complexo agora é transformado em gás renovável de alto valor calórico, capaz de substituir o óleo diesel fóssil nas frotas pesadas de caminhões e colhedoras que transportam a própria safra. Essa engrenagem fecha o ciclo da sustentabilidade, reduz a dependência de combustíveis importados e gera uma verdadeira economia circular aplicada na veia da nossa infraestrutura logística regional.
Mais do que isso, nosso combustível limpo aqui do interior paulista está literalmente prestes a ganhar os céus e os oceanos. Com as rígidas metas globais de descarbonização da aviação civil, o etanol surge como uma das matérias-primas mais eficientes do mundo para a produção do Combustível Sustentável de Aviação (SAF). A aviação internacional descobriu que o caminho para cumprir suas metas climáticas passa, obrigatoriamente, pelas nossas biorrefinarias, aqui no interior de São Paulo, abrindo um mercado multibilionário de exportação de valor agregado e atraindo os principais fundos globais de investimento verde para o nosso ecossistema.
Naturalmente, a manutenção dessa liderança global impõe desafios severos que não podem ser mascarados. As mudanças climáticas — ironicamente o problema que o nosso modelo de pesquisa e produção ajuda a combater — têm trazido secas prolongadas e intempéries severas na região, exigindo investimentos cada vez mais robustos em variedades de cana geneticamente modificadas, mais resistentes e sistemas de agricultura de precisão. Além disso, o redesenho tecnológico dessas indústrias exige bilhões em investimentos de longo prazo. Torna-se crucial, portanto, o desenvolvimento de linhas de crédito verdes acessíveis e a manutenção de um ambiente regulatório estável, consolidado por políticas públicas de Estado, como a recente Lei do Combustível do Futuro. Inspirador, para esse desafio, o nosso bem-sucedido Proálcool.
A transição energética não acontecerá por meio de uma única tecnologia soberana, mas pela combinação de soluções regionais inteligentes. O Brasil já provou que nossa terra pode produzir não apenas alimento para o mundo, mas a energia limpa que o século XXI exige. Olhar para os canaviais da Região Metropolitana de Ribeirão Preto e, por que não dizer, de todo o Estado de São Paulo, é enxergar que o futuro da energia pós-fóssil não precisa ser importado: ele já é gerado aqui, com tecnologia nacional, orgulho regional e impacto global.
* Consultor da Agência Inova Sorocaba. Foi Presidente da Comissão Permanente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Câmara Municipal de Ribeirão Preto

