Tribuna Ribeirão
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A moça na porta

Antonio Carlos Augusto Gama *
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Viu Matilde na porta da casa e acenou, para cumprimentá-la.

Só então, com um arrepio, lembrou que Matilde falecera há mais de dois anos, vítima de um aneurisma cerebral. E a porta da casa onde a tinha visto não era da casa dela, mas da casa de dona Mercedes, a costureira.

Foi entrando, trêmulo, na casa de dona Mercedes, que pedalava na máquina de costura Singer, como de costume. 

“O senhor aqui, doutor Venâncio? Que é que o traz aqui? Veio fazer alguma encomenda?”

“Que aconteceu? Está sentindo alguma coisa? Vou trazer-lhe um copo d´água.”

“A senhora não imagina, dona Mercedes! Acabo de ver a Matilde na porta da sua casa! Estava vestida com aquele vestido azul-claro, de bolinhas.”

Naturalmente, foi da casa de dona Mercedes que se espalhou a notícia de que ele vira Matilde. Vinham perguntar-lhe: Você viu mesmo a Matilde? Como é que foi?

Havia algo de secreto na aparição da morta. Algo que só dizia respeito a ele e ela, e que não devia violar. E ele, durante meses, sem lhe aparecer outra vez Matilde, pensava muito nela.

Haviam frequentado a mesma escola, embora ele fosse um pouco mais velho que Matilde. Ela sentava-se duas carteiras além da dele, à sua direita. Anotava tudo o que os professores falavam num caderno grosso. Ele, muitas vezes, pedira o caderno dela emprestado, para copiar o que perdera.

“Empresto, mas amanhã mesmo você me devolve”.

A mãe de Matilde convidou-o a ir à sua casa. Sem dúvida, soubera por alguém que ele vira a filha, na porta da casa de dona Mercedes.

Foi.

“Faça o favor de sentar-se, doutor Venâncio. Há muito tempo que eu queria conversar com o senhor.”

“Doutor Venâncio, como é que foi? Como é que o senhor viu a minha filha?”

Contou detalhadamente como havia visto a moça na porta da casa de dona Mercedes. Com o seu vestido de bolinhas. Dona Gertrudes disse-lhe que ainda guardava aquele vestido. Foi lá dentro e trouxe-o.

“Não é este?”

“Exatamente, este mesmo.”

Ainda com o vestido nas mãos, corriam lágrimas dos olhos de dona Gertrudes.

“O senhor não chegou a ser namorado da minha filha. Mas foram colegas na escola, não é?”

“Ela foi sempre muito recatada, muito quieta. Mas o que o senhor ainda não viu, o que eu vou buscar para lhe mostrar, acho que lhe vai causar mais surpresa.”

Trouxe-lhe uma pasta com recortes de jornal, e algumas folhas inteiras. Na pasta encontrava-se quase a história da sua vida, publicada no jornal da cidade. Fotografias, crônicas que ele mesmo escrevia para o jornal, notícias de suas viagens, de seu ingresso na Faculdade de Direito, da sua formatura, das festas em que estivera, da sua andança pela Europa, da sua banca de advogado, do primeiro júri em que atuara como advogado de defesa, das palestras que fizera… Tudo, tudo estava ali.

As mãos trêmulas, ele ia retirando os recortes, lendo deles algum trecho, e colocando tudo no mesmo lugar.

Com lencinho na mão, dona Gertrudes enxugava mais uma lágrima.

“Não foi surpresa para mim que ela tivesse aparecido só para o senhor…”

Estava comovido, muito comovido.

“O senhor podia ter sido meu genro, doutor Venâncio… Casado com Matilde. Deus não quis, e levou-a…”

Ele desculpou-se:

“Eu não sabia, dona Gertrudes, não sabia… Minha vida tem sido um desencontro, e talvez eu tenha perdido o melhor que podia me acontecer.”

Dona Gertrudes ainda lhe trouxe uma xícara de café.

“Volte sempre aqui, doutor Venâncio. Conversaremos. Será um consolo para mim.”

Despediu-se, abraçando a mãe de Matilde.

E, pelo resto da vida, sem mais ver Matilde, considerou-se viúvo dela. Com muita pena de si mesmo e de Matilde.

* Promotor de Justiça, aposentado, advogado, professor de Direito e escritor

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