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A perpetuação da figura do “juro que vi”

Foto: Arquivo

José Eugenio Kaça*
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Os mistérios e as superstições que cercavam a chegada do século 21, criaram um sentimento de medo e otimismo ao mesmo tempo. No Brasil, o sincretismo tomou conta, e teorias mirabolantes afloraram colocando parcela da população num êxtase mental e espiritual, e teorias prevendo o fim do Mundo se proliferaram, e ao mesmo tempo teorias otimistas prevendo um novo Mundo de paz e solidariedade – as duas previsões naufragaram.

Não aconteceu o fim do Mundo como era previsto, e nem a paz e a solidariedade se consolidou, em compensação os avanços tecnológicos colocaram o Mundo num patamar jamais visto, aí o ser humano começou sua jornada rumo a desumanização. Para entender o presente temos que estudar o passado, e neste quesito o povo brasileiro deixa a desejar. O Brasil cresceu, mas não se desenvolveu como Nação. A herança escravagista criou uma “elite” preocupada em agradar o império da vez, e com isso a sabujice passou a fazer parte do cotidiano dessa “elite” em prejuízo da população. O avanço tecnológico deveria melhorar o relacionamento humano, mas o advento da internet fez emergir o que há de pior no ser humano, e as atrocidades que estavam enterradas no passado voltaram com força, e povoaram o cotidiano.

Os seres humanos, na sua maioria, gostam de ouvir notícias de tragédias, e de fofoca da vida dos famosos. No passado as notícias vinham nas ondas das rádios, ou ficavam estampadas nas bancas de jornais, e as mentiras e de notícias falsas cotidianas circulavam em pequenos grupos.

Tinha a fofoqueira do quarteirão, que em alguns lugares era chamada de “candinha”, que sabia da vida de todo mundo. Com o tempo aquela fofoca aparentemente inocente, cresceu e mudou de patamar, e com isso novas técnicas começaram a circular, e as mentiras e notícias falsas surgiram como verdades. As eleições passaram a ser a época propícia para a disseminação destes eventos. Algum iluminado criou a figura do “juro que vi”, que passou a ser primordial para que mentiras e notícias falsas sobre algum candidato caísse na boca do povo.

O esquema era barato e eficiente. Para proliferar as mentiras e notícias falsas escolheram os ônibus do transporte coletivo, principalmente nos horários de pico. Duas pessoas iniciavam uma conversa sobre as eleições em voz alta, e comentavam sobre a vida pessoal de algum candidato, normalmente candidato a prefeito.

Neste diálogo, um dos personagens afirmava que tinha um (a) parente que trabalhava na casa do fulano, e que este candidato era uma péssima pessoa, pois vivia embriagado, agredia sua mulher e seus familiares; falavam com tanta convicção, que a os passageiros do ônibus prestavam atenção nesta conversa, e muitos acreditavam serem verdadeiras, e levavam para seus locais de trabalho e para suas casas as novidades sobre a vida pessoal do candidato – e isso funcionava.

Com a popularização das redes sociais, a figura do “juro que vi” foi massificada. E nos protestos induzidos que aconteceram a partir de 2013, a figura do “juro que vi” se tornou a figura principal. A escola sem partido, a mamadeira de piroca e o banheiro unissex foram ataques deliberados da extrema direita, para sucatear ainda mais a educação básica pública.

A figura do “juro que vi” passou a ser a ferramenta da extrema direita para atacar os pobres deste País. Um deputado da extrema direita eleito por São Paulo, afirmou: “quem recebe beneficio do governo, não pode ter direito a votar”. Colocam o povo numa arapuca, para que acredite que a solução para a desigualdade social é o Estado mínimo, e com isso vendem conforto do mercado financeiro. E este truque criminoso leva o povo para a miséria e a dor.

* Pedagogo, líder comunitário e ex-conselheiro da Educação

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