Tribuna Ribeirão
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A utilidade dos livros

Antonio Carlos A. Gama *
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Os livros têm variada utilidade. Se são grossos e pesados, você pode botá-los para escorar a porta que o vento costuma bater com estrondo. E até os mais leves servem para ser colocados em cima de alguns papéis, que estão sobre a sua mesa e você não quer perder.

Podem também ser atirados na cabeça de um sujeito que veio importuná-lo e lhe propor um negócio desonesto. Com eles podemos também nos abanar, à falta de um leque, num dia de muito calor e sem brisa. Encadernados e com lombadas douradas, decoram a estante na sala-de-estar. Abertos sobre a mesa, são como as mulheres que se nos oferecem. Por fim, são destinados à leitura.

Os dicionários prestam-se apenas para consulta. Mas é delicioso pegar um dicionário, à procura do significado exato de uma palavra. O verbete é longo, são muitos os significados de uma mesma palavra, e a sua etimologia, a sua origem, ainda nos mergulham no passado. Além disso, depois da palavra buscada, encontram-se outras, muitas outras, na mesma página, e vai-se lendo uma e outra, infindavelmente, até que cansamos, fechamos o dicionário e prometemos retornar a ele no dia seguinte.

Nos livros, muitos leitores deixam pedaços de papel, para marcar o lugar onde paramos a leitura, para prosseguir mais tarde. Alguns desses papeluchos são bilhetes. Anos de depois, torna-se a abrir o livro e dá-se com um desses bilhetinhos enigmáticos, que procuraremos decifrar.

Todo livro é um mistério que não acaba em sua última página, antes prossegue, e em cada releitura se descobre um pouco daquilo que antes nos permanecera incompreensível ou nos escapara.

Ler é manter um compromisso que não fizemos com ninguém, mas que honramos para ser nós mesmos e para nos ligar com todos (autores, personagens, paisagens) que já partiram. Dos autores mortos e sepultados, com o tempo, não restam nem os ossos. Não obstante, eles continuam nos seus livros, se estes são bons.

Guardar livros e conservá-los é como guardar maçãs que nunca apodrecem nem ressecam, desde que sejam verdadeiras, e bem cuidadas. De uma hora para outra, temos vontade de sentir o sabor de uma maçã, e lá está o livro que se oferece à nossa boca, isto é, aos nossos olhos. Porque os olhos também comem.  Por isso mesmo, os livros têm cor, têm cheiro, são doces ou amargos, salgados, apimentados.

Amanhece, entardece, anoitece. É outono, é verão. Cada livro tem a sua hora própria, a sua estação própria, e quem não sabe disso não é um bom leitor.

Supomos que o livro acaba na sua última página. Não acaba. Ela se emenda na primeira página de outro livro, ou em outras páginas de outros livros. Porque todos têm ressonâncias de uns e de outros. Exato: cada autor pertence a uma família, e são muitas as famílias. Mas, até mesmo com as brigas na vizinhança, todos eles habitam a mesma cidade.

Quem pergunta qual é a utilidade do livro jamais será um leitor.

* Promotor de Justiça, aposentado, advogado, professor de Direito e escritor

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