“A história é uma coisa que não aconteceu, contada por um sujeito que não estava lá.” (Machado de Assis)
Antonio Carlos A. Gama *
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Os dicionários não registram a expressão “andar de fasto”. Nem o Aurélio, nem o Houaiss. Registram eles “fasto”, como magnificência, pompa, dias em que, entre os romanos, se podiam exercer certas jurisdições, dias fastos e nefastos.Mas, calam-se sobre “andar de fasto”, que é coisa completamente diferente e significa “andar para trás”. Talvez “fasto”, nesse sentido, derive de “afastar”.
De qualquer maneira, na minha infância, ouvi muitas vezes “andar de fasto”. E as mães advertiam os meninos que “andavam de fasto”. “Não ande de fasto, menino, que dá azar”. O azar era principalmente que, andando de fasto, não se viam os obstáculos ou os buracos, atrás, e podia-se cair.
O homem prefere andar para frente. Andando para trás, ou “de fasto”, a linha do horizonte também se distancia de nós. Recua ainda mais. Andando para trás, e de costas, ou “de fasto”, modificamos a perspectiva que está à frente.
Quando voltamos para o passado, estamos andando “de fasto”. Tem as suas vantagens, e as suas desvantagens. Já conhecemos mais ou menos o que está à frente e próximo de nós. Mas, para trás, vamos reconhecendo o que ficou às nossas costas e deu causa ao que está à frente.
A história é uma maneira de andar para trás. E muitas vezes a visão dela é falsa, porque andamos para trás para contemplar as épocas passadas com os nossos preconceitos hodiernos, extraindo conclusões absolutamente incompatíveis com o que aconteceu séculos e milênios atrás. É uma profecia de revés. E o erro também sucede quando fazemos prognósticos do futuro. Já é muito que enxerguemos dois palmos adiante do nariz.
Se andarmos de fasto e fizermos um breve e restrito inventário das expressões, locuções e provérbios correntes, ou que foram correntes no Brasil, veremos o quanto éramos rurais e agrícolas.
Examinem-se umas poucas expressões, algumas delas ainda usadas: tirar o cavalo da chuva; lavar a égua; a vaca ir para o brejo; amarrar o cavalo conforme a vontade do dono; boi em terra alheia é vaca; boi sonso é que arromba curral; o boi solto lambe-se todo; pé de galinha não mata pintinho; amarrar o bode; é de pequenino que se torce o pepino; ir plantar batatas; aqui é que a porca torce o rabo; dar com os burros n’água; perder as estribeiras; estar de cavalo selado; não há boiada sem boi corneta; lamber sal no mesmo cocho.
Agora que viemos todos para as cidades, e as fazendas se industrializaram e mecanizaram, vamos perdendo, ou já perdemos o contato com a natureza e com os bichos.
Um mal, ou um bem?
Certamente, não se deve chorar sobre o leite derramado. A história não para, nem ancora num só estágio. Mas se avança, é também circular, e daí a nostalgia dos campos e das boiadas, que se reflete nos festivais e rodeios, desvirtuados pela norte-americanização dos cowboys de fancaria, tão diferentes dos nossos verdadeiros vaqueiros e campeiros. E as modas de viola, de duplas supostamente sertanejas, também são a imagem desse saudosismo de muita gente que não sabe distinguir um pé de feijão de um pé de couve, havendo quem ache que pamonha nasce nos galhos dos pés de milho.
O dilema, porém persiste, e arma-o Carlos Drummond de Andrade:
No elevador, penso na roça,
na roça, penso no elevador.
* Promotor de Justiça, aposentado, advogado, professor de Direito e escritor

