Conceição Lima *
No Japão, as alfaces já não precisam da terra para existir. Crescem em ambientes controlados, suspensas em prateleiras verticais dentro de galpões industriais. O sol foi substituído por luzes LED; o solo, por água misturada a nutrientes; e os trabalhadores, por robôs que movimentam bandejas conforme o estágio de crescimento. A supervisão humana foi transferida à Inteligência Artificial, que monitora temperatura, umidade e luminosidade, criando condições ideais em cada fase. São verdadeiras “fábricas de verduras”.
A empresa Spread, em Kyoto, tornou-se símbolo dessa revolução: produz 30 mil pés de alface por dia, cerca de 11 milhões por ano, sem solo, sem pesticidas e independente das estações, com apenas 25 funcionários. Essa solução responde à escassez de mão de obra agrícola, já que a juventude migrou para os centros urbanos e a idade média dos agricultores é de 67 anos. Além disso, o relevo montanhoso e os tufões limitam a agricultura tradicional. Galpões industriais e prédios abandonados foram convertidos em hortas verticais, revitalizando espaços urbanos e aproximando o alimento do consumidor.
Enquanto no campo a colheita leva até 90 dias e enfrenta pragas, nas fábricas o ciclo é acelerado e previsível. A IA ajusta variáveis em tempo real, calcula o momento exato da colheita, otimiza luz e água e registra todo o ciclo da planta. Inclusive, já se experimenta até com tomates, morangos e outras hortaliças.
Essas “fábricas de verduras” mostram como IA e automação podem reinventar a agricultura, transformando prédios em campos verticais. É uma resposta à escassez de mão de obra, à instabilidade climática e à demanda crescente por alimentos saudáveis, com potencial de inspirar modelos semelhantes em outros países. E o Brasil é um deles.
No Brasil, porém, a agricultura vertical ainda é incipiente. Experiências em São Paulo e Curitiba se limitam a hortas urbanas com hidroponia e aquaponia, algumas com sensores, mas sem uso significativo de IA. Enquanto o Japão aposta em automação pesada, o Brasil permanece em fase experimental.Mas é possível imaginar outro futuro…
O Brasil das Fazendas Verticais
Era manhã em São Paulo, 2035. O sol mal havia rompido o horizonte, mas os prédios já brilhavam por dentro, não com escritórios, mas com fileiras de hortaliças suspensas em andaimes de luz. As antigas torres comerciais, outrora símbolos de concreto e burocracia, agora respiravam verde.
Os caminhões não carregavam mais verduras vindas de milhares de quilômetros. O alimento nascia ali mesmo, no coração da cidade. Alfaces, rúculas e temperos cresciam sob LEDs inteligentes, monitorados por sistemas de IA que ajustavam cada gota de água, cada sopro de ar. O ciclo da vida era calculado em algoritmos, mas o sabor permanecia humano.
As crianças das periferias visitavam as “fazendas verticais” como quem entra em um parque. Tocavam folhas frescas, aprendiam que a comida podia nascer em prateleiras iluminadas, e que o futuro não era distante, estava ao alcance da mão. Jovens treinados em tecnologia agrícola operavam os sistemas, transformando o antigo desemprego urbano em novas profissões.
No mercado municipal, a cena era outra: hortaliças colhidas naquela mesma manhã, vendidas sem atravessadores, sem longas viagens. O Brasil descobria que podia ser ao mesmo tempo urbano e agrícola, que o concreto podia florescer.
E, no silêncio das máquinas, havia uma lição filosófica: o desconforto do passado (fome, desperdício, desigualdade) havia se transformado em semente. As cidades, antes vistas como devoradoras de recursos, tornaram-se jardins suspensos.
O Brasil de 2035 não era apenas produtor de alimentos. Era produtor de esperança.
Todavia, essa “comida do futuro” é paradoxal: libertadora e arriscada. Libertadora, porque promete emancipar a humanidade da fome, garantindo alimento fresco em qualquer estação. Arriscada, porque desloca o alimento de sua raiz simbólica. O pão que antes nascia da terra e do suor passa a brotar de algoritmos e máquinas.O risco não é apenas técnico (falhas, custos, dependência energética), mas existencial: perdermos o vínculo com o ciclo natural, com o gesto ancestral de plantar e colher.
Libertação e ameaça caminham juntas. A comida do futuro pode ser o sinal de uma humanidade mais justa, sem fome, mas também pode se tornar produto industrial, homogêneo, distante da diversidade cultural que sempre marcou nossa relação com o alimento.
O desafio é acolher a técnica sem perder o sentido. Permitir que a IA seja guardiã da abundância, sem se tornar carcereira da experiência humana. Pois alimento não é apenas nutrição: é memória, cultura, encontro.
Se o futuro da comida unir eficiência tecnológica com respeito à diversidade e ao simbolismo humano, o paradoxo se transforme numa síntese ideal: a técnica como aliada da vida, não como substituta da terra
* Doutora em Letras, com pós-doutorado em Linguística, escritora, conferencista e palestrante, membro eleito da Academia Ribeirãopretana de Letras e da Academia membro fundador da Academia Feminina Sul-Mineira de Letras

