Lucius de Mello *
O filme O Morro dos Ventos Uivantes, adaptado e dirigido por Emerald Fennella a partir do romance de Emily Brontë (1818-1848), realça o diálogo entre a obra da escritora inglesa e a do francês Honoré de Balzac (1799-1850). Essas aproximações, contudo, vão além da mera inserção de ambos na literatura oitocentista.
Para entender possíveis razões que poderiam ter feito Brontë se encantar por Balzac, precisamos voltar à juventude do autor francês. Antes de começar a assinar seus textos com o próprio nome, Balzac usava pseudônimos. Um deles, sugestivamente bem inglês: Lord R’hoone, com o qual ele assinou suas primeiras narrativas — Une heure demavie (não publicada), L’Héritièrede Biraguee Clotilde de Lusignan—, conforme aponta Anne-Marie Baron.
É importante destacar que a literatura gótica, iniciada no século XVIII e que depois se tornaria o estilo preferido de Brontë, também foi praticada por Balzac no início de sua carreira. Scott Sprenger, no ensaio Balzac e romance gótico inglês, nos lembra que os primeiros romances balzaquianos, escritos antes do projeto A Comédia Humana, “eram inspirados na literatura gótica inglesa. Balzac o disse. Os críticos constataram”.
De acordo com Sprenger, o romancista conhecido como “pai do Realismo” incorporou o gótico em seus Contos Engraçados, nos Estudos de Costumes e, sobretudo nos Estudos Filosóficos. O pesquisador destaca os romances A pele de Onagro (La peau de Chagrin) e O Coronel Chabert (Le Colonel Chabert). Neste último, o protagonista, sobrevivente de guerra, se pergunta: “Estou eu vivo ou morto?”. As nuances góticas que se espalham pelos primeiros livros de Balzac, somadas ao uso de um pseudônimo inglês, podem ter atraído Brontëpara a obra balzaquiana.
Alguns biógrafos sugerem que as irmãs Brontë, sobretudo, Emily e Charlotte, tinham acesso a uma rica biblioteca, composta por obras de autores como Victor Hugo, George Sand e Honoré de Balzac, especialmente durante a temporada que viveram num pensionato em Bruxelas. Além disso, o professor delas, Constantin Héger, era apaixonado pela literatura contemporânea produzida na França. O mestre, então, teria estimulado suas alunas a ler e conhecer os estilos dos autores modernos do século XIX.
No romance Eugénie Grandet, de Balzac, o narrador é onisciente, em terceira pessoa, típico do Realismo/Naturalismo do século XIX. Ele observa os comportamentos, analisa, faz críticas e interrupções com comentários. Já em O Morro dos Ventos Uivantes, de Brontë, há mais de um narrador-personagem, sempre em primeira pessoa, que se lançam em relatos subjetivos. Destacam-se, entre eles, o Sr. Lockwood, inquilino, e Nelly Dean, a governanta.
Apesar dessa importante diferença, os ecos da imaginação balzaquiana em O Morro dos Ventos Uivantes começam pela construção da personagem Catherine Earnshaw. Seu drama lembra o vivido por Eugénie Grandet, protagonista do romance homônimo. Não encontrei nenhum documento ou estudo científico que ateste que a heroína de Balzac tenha influenciado a criação da personagem moradora da região de Yorkshire, no norte da Inglaterra. Porém, as semelhanças na armação do enredo podem nos levar a pensar que Balzac teria alguma participação indireta na ventania romanesca de Brontë.
O romance Eugénie Grandet foi publicado, pela primeira vez, em 1833, quando Emily Brontë estava com 15 anos. Nele, Balzac retrata a história de um amor que deveria ser apenas fraternal, mas que evolui para uma paixão. A jovem provinciana Eugénie Grandet se apaixona pelo primo Charles Grandet que, desempregado, vem passar uma temporada na casa dos tios na cidade de Saumur, interior de França. Charles e Eugénie vivem um romance proibido, contra a vontade do pai de Eugénie. Nesse pequeno recorte iluminam-se ressonâncias entre as duas obras: em O Morro dos Ventos Uivantes, Catherine se apaixona por Heathcliff, rapaz adotado pela sua família e criado como se fosse seu irmão bastardo. Ela também desafia o desejo do pai e enfrenta as barreiras da sociedade para viver sua paixão.
Em Eugénie Grandet, há um momento no qual Charles deixa a casa dos tios e faz uma longa viagem em busca de negócios, retornando, anos depois, como um homem rico. Trama semelhante se dá em O Morro dos Ventos Uivantes, já que Heathcliff também deixa a propriedade rural na qual foi criado e regressa transformado e bem-sucedido.
Em novo paralelismo, Charles se casa com outra mulher em Paris, enquanto Eugénie, desiludida, se entrega a um casamento infeliz com um homem bem mais velho, mas continua apaixonada pelo primo. Catherine, por sua vez, também se casa com outro homem e morre completamente apaixonada por Heathcliff.
Outra alusão a Balzac ocorre no momento em que Heathcliff sente o aroma do perfume usado por Catherine e reprova o gosto da amada; ela responde: “É o lírio do vale!”. Sabemos que O Lírio do Vale (Le Lys danslavallée) é o título de um romance de Balzac publicado em 1836, que narra o amor platônico e trágico entre Félix de Vandenesse e a condessa, casada, Henriette de Mortsauf. A história também se passa numa região provinciana na qual o campo — com seus morros, rios, ventos e, especialmente, as flores —, assume papel central. O lírio, em especial, além de dar nome ao livro, permeia simbolicamente toda a narrativa. Nessa época, Balzac já era uma celebridade na Europa e Brontë, com seus 18 anos, uma leitora da literatura francesa.
Nesse romance há uma personagem feminina que pode ter encantado ainda mais Emily Brontë: a inglesa Lady Arabelle Dudley. Trata-se de uma verdadeira representante da alta sociedade britânica, que vivia em Paris em meados do século XIX. Segundo Willi Jung, “modelo da mulher fatal”, “completamente independente do marido”; uma libertina, que disputa o amor de Félix com a religiosa Mme. de Mortsauf, autora da frase “Não permitirei mais carícias sem recheá-las com versículos da Bíblia”.
Somente uma pesquisa mais aprofundada sobre o tema poderia apontar se a leitura dos romances de Balzacteria influenciado ou não a escritura de O Morro dos Ventos Uivantes. No entanto, há biografias que sugerem encontros literários que a autora inglesa teria vivenciado com Balzac ao ler os seus livros. Certo mesmo é a presença da Inglaterra na obra de Honoré de Balzac que foi, e ainda é, muito bem realçada pela crítica, aponto de ter motivado, recentemente, uma edição especial da revista L’Année Balzacienne publicada em 2019: Balzac et L’Angleterre.
* Doutor em Letras pela USP e Sorbonne Université-Paris. Autor da tese A Bíblia segundo Balzac: Deus, o Diabo e os heróis bíblicos em A Comédia Humana. Jornalista, escritor e finalista do Prêmio Jabuti em 2003.

