Rui Flávio Chúfalo Guião *
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Janto ouvindo o som estridente das cigarras ao longe e acordo com o cantar repetitivo dos sabiás. É tempo de acasalamento e tudo se enche de melodias, manhãs, dias e fins de tardes.
Além da alegria de ouvir estes sons encantados, é época para nos lembrarmos do que sabemos a respeito do inseto e do pássaro.
Encontramos cigarras em várias partes do mundo, somente no Brasil são dezenas de espécies. Elas cantam maciçamente no início da primavera, quer estejam no hemisfério norte, como no sul. Há vários tipos da harmoniosa melodia que elas produzem, cada espécie com sua toada. Ora, algumas cigarras produzem um silvo constante, meio metálico, ora soltam chiados harmônicos, com notas que se seguem e se complementam.
Na minha infância, gostava de caçar os insetos, geralmente no tronco das árvores, observar e sentir o fibrilar da estrutura sonora e depois solta-los de voltas à natureza.
Todos nos ensinavam a fábula da cigarra e da formiga, uma cantando, cantando, outra trabalhando, trabalhando e quando chegava o inverno, só as formigas sobreviviam, graças a seu perene esforço de juntar alimento. Parece que os mais velhos, com esta história, queriam incutir na nossa mente a mensagem de que só o trabalho cria valor.
Interessante o mecanismo que ela utiliza para produzir o som. Somente o macho canta, usando estruturas chamadas tímpanos, membranas movimentadas por músculos muito potentes, cujo som reverbera no abdome do inseto, funcionando como uma caixa de ressonância. Cada espécie tem seu canto próprio com o objetivo de atrair a fêmea.
Fecundada, ela deposita seus ovos em galhos ou folhas e, quando surgem as ninfas, elas se deixam cair com uma espécie de teia paraqueda, atingem o solo e nele penetram perto das raízes da árvore. Ali vegetam por muitos anos, até subir à superfície, onde se agarram às árvores ou outra estrutura e se transformam em cigarras, deixando aquele esqueleto vazio que encontramos.
Já o sabiá, com a denominação genérica de tordo, existe em várias partes do mundo. No Brasil, são conhecidas quinze espécies registradas dos tordos, a mais conhecida delas o sabiá-laranjeira, ave símbolo do nosso país e encontrado em todas as nossas regiões.
Seu canto constante e prolongado, mais forte nas manhãs, tem um duplo objetivo: demarcar e defender seu território e atrair a fêmea.
Em outubro e novembro, o canto do sabiá se faz presente de forma insistente. Nos demais meses, ele perde a intensidade e até passa despercebido.
Os sabiás brasileiros têm uma curiosidade: são urbanos, convivem em nossos jardins, sua proximidade pode ser sentida não só pelo canto, como também com seu avistamento, pastando na grama de nossas áreas internas.
O silêncio do dia que nasce é a hora mais gostosa de ouvi-lo.
Na cidade de São Paulo, envolta num barulho de grande metrópole, o sabiá espera o silêncio para começar a atrair a companheira. E dá-se um fenômeno interessante: cada dia canta mais cedo, para escapar do ruído da urbe. É comum àqueles que se levantam com a noite ainda espessa, ouvir o melodioso canto do pássaro.
E entre estes cantares, vou louvando cada dia mais, as belezas da natureza.
* Advogado, empresário, Presidente do Conselho do Grupo Santa Emília, Secretário-Geral da Academia Ribeirãopretana de Letras

