Mari Armani
Psicóloga formada pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul e especialista em Psicanálise Clínica pela Universidade de Franca, atua na clínica há mais de 17 anos, dedicando-se ao cuidado emocional e ao desenvolvimento de seus pacientes, com constante investimento em formação continuada
@mariarmani.psi
“Sinto que caminho por um deserto, cada passo pesa como se carregasse o mundo inteiro, e ainda assim, ninguém percebe que já não consigo mais respirar direito.”
Esse sentimento não é incomum. Ele descreve a experiência de muitas pessoas que vivem a síndrome de burnout, uma condição caracterizada pelo esgotamento físico, emocional e mental causado por excesso de demandas e pressão constante, geralmente relacionadas ao trabalho, mas também presentes em contextos de estudo ou cuidado intenso com outros.
Do ponto de vista da psicanálise, o burnout pode ser compreendido como uma manifestação do sujeito que internaliza exigências externas de forma extrema, sacrificando seu desejo, prazer e limites pessoais. O psicanalista observa que muitas vezes, o sofrimento surge da tensão entre o que o indivíduo sente que deve fazer e o que seu corpo e mente realmente suportam. Há um empobrecimento da vida psíquica: a pessoa se torna funcional, mas desconectada de si mesma, e isso pode gerar sentimentos profundos de fracasso, culpa e vazio.
Os sintomas são múltiplos e sutis, mas quando somados, tornam-se incapacitantes: fadiga constante e sensação de esgotamento mesmo após descanso; irritabilidade, impaciência ou sentimentos de cinismo e distanciamento; dificuldade de concentração e tomada de decisões; alterações no sono e no apetite; sintomas físicos como dores musculares, cefaleia ou problemas gastrointestinais.
As estatísticas reforçam a dimensão do problema: estudos indicam que aproximadamente 30% dos trabalhadores em grandes centros urbanos relatam sintomas consistentes de burnout, com impacto significativo na produtividade, absenteísmo e saúde mental. Entre profissionais de saúde, educação e tecnologia, o percentual pode superar 50%, evidenciando que o contexto social, econômico e organizacional contribui fortemente para desencadear o quadro.
Nesse sentido, a sociedade também tem sua parcela de responsabilidade. A cultura da hiperprodutividade, a ausência de políticas de proteção à saúde mental e o estigma que cerca o sofrimento emocional, contribuem para que pessoas com burnout se sintam invisíveis. Reconhecer que não é fraqueza buscar ajuda é fundamental para quebrar esse ciclo.
A psicoterapia, especialmente a psicanalítica, oferece um espaço seguro para que o sujeito possa: reconectar-se com seus próprios limites e desejos; refletir sobre a relação entre suas escolhas, pressões externas e sofrimento; desenvolver estratégias de enfrentamento que respeitem sua singularidade.
Tratar o burnout é essencial não apenas para a saúde individual, mas para a saúde das relações e da sociedade como um todo. Cada pessoa que se permite parar, refletir e pedir ajuda, contribui para um mundo em que o trabalho e o cuidado com o outro não significam a anulação do próprio eu.
“É preciso ouvir o cansaço antes que ele fale em gritos que não podemos mais ignorar.”

